A pedra falante de Petrópolis

Eu vi o presidente do Brasil exaltar na televisão o sucesso da sua viagem à Rússia, durante a entrevista coletiva improvisada nos escombros de Petrópolis, a Cidade Imperial, arrasada pelas cachoeiras que caem do céu há uma semana.

Rua Teresa, centro comercial de Petrópolis – Foto Marcos Serra Lima/g1 – Fair Copyright

Um assessor advertira que o assunto se restringiria à tragédia, mas o Sr. Jair Bolsonaro aproveitou uma pergunta sob encomenda para se elevar ao primeiro plano da diplomacia internacional. Comentou a própria recepção em Moscou com honras de chefe de estado e a intimidade a “um metro e meio” do russo que exila os protagonistas europeus da crise na Ucrânia para o extremo oposto de uma mesa quase do tamanho do seu ego. Recado subjetivo sobre o boicote à vacinação contra a epidemia Sars-Covid.

Falou maravilhas sobre as conquistas do governo e o reconhecimento extraordinário do Brasil no cenário internacional. Nem um pio, tweet, a respeito dos 640 mil mortos pela “gripezinha” que ele prometia curar com panacéias. Mentiu outra vez sobre a Amazônia. Gabou-se de acordos e protocolos. Ficamos empolgamos ao saber que teremos uma fábrica de fertilizantes comunistas em Mato Grosso. Viva a soja marxista, as vacas camaradas e os bois engajados no processo histórico da pecuária nacional.

O vosso presidente não disse nada sobre os bilhões dos fundos eleitoral e partidário boiando nas enxurradas que afogam o país. Também não explicou o que Vladimir Putin tem a ver com tantos mortos nos escombros da “Cidade Imperial.”

Imagem Marcos serra Lima/g1 -Fair Copyright

Ninguém precisa de ser muito esperto para constatar a armação da coletiva sob medida. O candidato no poder usou o drama de Petrópolis como palanque na campanha antecipada pela reeleição que ele prometeu extinguir. Aí uma pedra oportunista pediu a palavra e disse:

Por favor, só não me rolem sobre o Bolsonaro. Eu já estou suja demais.

Que frango!

Domingo 30/01/2021 – Imagem da www atribuída a “aliados de Jair Bolsonaro” Título do autor: O frangueiro federal.

Aliados do presidente terrivelmente Messias divulgaram na rede antissocial a sua imagem devorando um galeto em Brasília, DF: Distrito Farofal. O “flagrante” fora bolado para identificar o candidato à reeleição com o Zé Povinho que economiza a semana inteira para comer um franguinho dominical.

O primo pobre e a Ximbica – Foto HBY

Coitada da galinha do primo pobre, a Ximbica do Balança Mas Não Cai, sucesso da Rádio Nacional, no tempo em que o país se chamava Estados Unidos do Brasil. Ximbica era símbolo da fome, tão fraca, coitada, que nunca pôs um ovo. Hoje ela estaria na fila do Auxílio Brasil, implorando alguns grãos de milho.

Primo pé de chinelo só come galinha quando um dos dois está doente, mas, rico ou pobre, a etiqueta permite que se coma com mão, terrivelmente igual ao Messias no farofacebook.

A roupa preta do modelito motoqueiro ressaltou a farofa espalhada entre as pernas do goleiro federal. Sobrou osso na bandeja, dendê nas calças e farinha no chão, uma lambança no pé da mesa. A prova da premeditação da cena é que ele enchia pança sozinho, contrariando a estratégia das aglomerações promovidas para alavancarem a sua popularidade decadente. Dessa vez o isolamento considerou a gripezinha que até agora só matou uns 650 mil brasileiros.

A ideia parecia boa, mas o herdeiro histórico da gula de D. João VI por galináceos também é notório pela falta de senso crítico. Fato histórico: o Imperador do Brasil tinha sempre pedaços de frangos nos bolsos da casaca e o hábito de encolher perna esquerda ao peidar. Os problemas gastro/intestinais da república são políticos, pois o presidente espalha tanta mer… quero dizer farofa que trocaram o papel higiênico no banheiros do Palácio do Planalto por ventiladores.

Seu primeiro impulso, naquela jeitão impaciente que você conhece, foi divulgar a coisa na hora do almoço, explorando a empatia populista. E os gatos miam felizes, pois o preço da carne lá nas alturas provou a existência do boi voador. A galera farofeira agora aluga o churrasquinho e guardo o espeto. Carne? O presidente também só come em churrascarias, de preferência antes da sobremesa dos insultos à imprensa.

Porém a rede balança e a assessoria caiu na real. A cena era grotesca como a botina de Jeca Tatu e o frangueiro federal mandou apagar a postagem. Sobrou a conta do assalto ao galinheiro. Todos os depenados pelos impostos e a inflação têm o direito de saber qual dos 29 cartões corporativos da Presidência foi usado, pois a fatura de 2021 foram R$ 29 milhões e 600 mil, recorde de esbanjamento. E , no final das contas, todo mundo sabe quem rói os ossos.

JB: o jornal que virou lenda

Este artigo foi publicado no “aniversário” de 11 anos da última edição do Jornal do Brasil original. Lá se foram seis meses e vieram 79 leitores. Parecem poucos mas eu os considero como os melhores e agradeço. Reedito a publicação em memória do JORNALISTA Leo Schlafman, que nos deixou, aos 86 anos, neste 28 de janeiro de 2022, vítima do mal de Alzheimer. É a minha homenagem a um JORNALISTA que nos honra e me emociona por sua competência, caráter e amor ao velho jornal. O editor
do Torah vai recebê-lo com carinho na redação infinita. Shalon, Schlafman.

  Quando o JB era o diário mais influente do país e não acontecia nada que merecesse ser publicado na primeira página, o chefe da redação esculhambava a “cambada da reportagem”. Em compensação, quando o mundo virava de pernas para o ar, era pior. Os estagiários se encolhiam atrás das máquinas de escrever. Não foi atoa que Carlos Lemos, um mestre da geração que reformou a imprensa brasileira, mereceu o apelido carinhoso de Seu Lelé.

             Mas no dia 31 de agosto de 2010 não houve nada disso. Naquela terça-feira sem graça o Jornal do Brasil foi editado pela última vez desde a sua fundação, em 9 de abril de 1891. E o chefe chorou. Muitos leitores também lamentaram o fim do velho amigo que os esperava na banca da esquina, sempre de terno, clássico; sério mas espirituoso, com a cabeça boa apesar dos seus 119 anos.

          Nessa convivência centenária, o JB informou aos seus amigos sobre tudo e todos, em edições recheadas de notícias, artigos, editoriais, crônicas, análises econômicas e política, esportes, cartas dos leitores, charges, coluna social, tiras de quadrinhos, horóscopo, palavras cruzadas, resultados da loteria, achados e perdidos, telefones úteis, segurança pública, educação, cultura, utilidades domésticas, anúncios classificados, serviços públicos, turismo, previsão do tempo, biografias, obituários, manifestos, milhões de entrevistas,  ilustrações, cadernos especiais, fotografias e reportagens memoráveis.

         A urgência do noticiário e a linguagem diferenciam o jornalismo da literatura. Livros sobrevivem conforme a qualidade da narrativa, mas, até sob esse aspecto, o JB se elevou ao nível de arte por sua qualidade e conteúdo, além da função como prestador de serviços e registro histórico. E ainda servia para embrulhar peixe na feira, polir vidraças, forrar o chão, acender a churrasqueira, esquentar os mendigos no inverno. Muita gente boa fez palmilhas com as páginas dos anúncios classificados nos dias de chuva. Tudo isso pelo equivalente a R$ 1,30 nos dias úteis, R$ 1,50 anos domingos. O preço de capa não pagava o papel.

Condessa Maurina Pereira Carneiro: a autoridade com ternura. Foto JB

          O JB era um jornal católico, apostólico, romano. Pertencia a Maurina Dunshee de Abranches, herdeira de Ernesto Pereira Carneiro, condes da aristocracia vaticana. Esse aspecto conservador ressaltava a liberalidade editorial que me surpreendeu desde que fui admitido como redator copy-desk, aos 24 anos. A sede antiga era na Av. RioBranco, 110, num lindo prédio Art Noveou que já fora o mais alto da América Latina. Isso foi há meio século e eu ainda me orgulho de haver participado daquela equipe reconhecida e respeitada como a melhor do jornalismo brasileiro na sua época.

Publicidade legítima à parte, a imprensa sempre serviu como balcão de negócios, refúgio de picaretas e trampolim para farsantes… especialmente políticos e outros alpinistas sociais. A propina era chamada de jabá no dialeto das “pretinhas” (as teclas das máquinas de escrever). E o prestígio do JB emanou da sua linha editorial e princípios inegociáveis: objetividade, isenção e veracidade. O pesadelo dos repórteres era ter um desmentido. Após um ano como redator, perdi a paciência de reescrever as matérias dos outros e pedi “rebaixamento” para trabalhar na reportagem.

Cobri pequenas comédias, bobagens cotidianas, histórias pitorescas, vitórias, derrotas, euforias e desesperos. Nosso trabalho sempre em contato direto com as personagens servia como documento pela credibilidade do jornal. Hoje, o jornalismo eletrônico projeta o comunicador no exibicionismo www, embora isolado numa torre tecnológica. Os flagrantes são feitos por câmeras de vigilância e os selfies disputam espaço com os fatos e a manchete do dia é fake news. A minha geração encerrava a época tipográfica inaugurada pela invenção de Johannes Gutemberg no Século XV, e, quando os jornalistas órfãos do JB velaram o jornal em praça pública, eu anotei na minha caderneta de capa preta:

“31.8.2010 – Último dia de circulação do Jornal do Brasil. Companheiros reunidos na Cinelância, em frente ao bar Amarelinho. Foto coletiva nas escadarias da Câmara Municipal. Léo Schlafman se desmancha em lágrimas. Nessa noite eu sonhei com diamantes quebrados.”  

         Depois enchemos a caveira de chopp no bar Amarlinho, sentindo-nos órfãos de uma era, sem causa, e muitos com com as queixas trabalhistas que resultaram no leilão da marca JB. A agonia do nosso jornal começara no confronto com a ditadura militar instaurada em 1964. Houve boicotes orquestrados pela extrema direita e a redação foi invadida por gorilas comandados por um almirante. Porém, até nos momentos mais difíceis, o espírito JB se manifestava. Alguém perguntou se a Marinha chegara pra afundar a vovó Maurina, e a réplica daria uma manchete legal:

   “Não complica, porra!”

            Mas o que o botou o JB a pique não foi a ditadura de 1964. A própria República (também militar) já empastelara o jornal por quase dois anos, e ele sobrevivera com sua coragem legendária. Isso permanecerá enquanto a história do jornalismo brasileiro for lembrada.

O fim de pessoas e coisas importantes, cultuadas pelo imaginário coletivo, deixa vazios que são preenchidos aos poucos por versões imprecisas. Assim surgem as mitologias. Lembrar episódios e amigos daquela equipe formidável seria muito legal, porém, em memória da qualidade editorial histórica, referência na imprensa nacional e estrangeira, é mais importante reconstituir as causas do adeus do JB, o jornal que virou lenda.

Cinco séculos e meio após a revolução provocada por Gutemberg ao inventar a tipografia – matriz da imprensa – a www nos interliga  numa democracia global… mas extingue  a indústria cujo registro diário da História configurou a atualidade. Adeus jornal impresso. O acesso à rede onipresente permite a qualquer um  divulgar o que quiser, e somos todos jornalistas eletrônicos. Isso anima aos loucos que querem consertar o mundo e acreditam que podem fazer isso  escrevendo.

              Complemento deste assunto na postagem: A maçã de Gutemberg. Muito obrigado pela atenção, hbcomborges@gmail.com       

Confiteor

Eu, brasileiro, confesso ao leitor, seja lá quem for, que sou testemunha do progresso para trás do velho Brasil pra frente. Todo santo dia, queira ou não queira, assisto a roubos, assaltos, arrastões, golpes digitais, estelionatos, tráfico de drogas, assassinatos, latrocínios, sequestros relâmpagos, avanço das milícias, covardias por policiais, massacres de bandidos, inocentes achados por balas perdidas, multidões ao relento, velhos vítimas de maus tratos, abusos de crianças, juventude abandonadas, drogados sem rumo, doentes empilhados nos hospitais, parentes implorando ajuda, famílias desagregadas.


Apesar dos efeitos negativos da Covid, a arrecadação brasileira bateu recorde em 2021: cerca de R$ 1 trilhão e 600 bilhões, um acréscimo de 20%. Essa tributação financiou o retrocesso social inegável do país

Um dia sim, outro também, eu vejo com os meu olhos, cheiro no ar, sinto na pele, ouço falar dos políticos omissos, das autoridades incompetentes, da corrupção oficial e das mentiras acima de todos no Brasil abaixo da crítica. Aí um flagelado pelas enchentes chora ao receber uma a cesta básica, agradece a Deus pela própria desgraça. O presidente da república dá um cavalo de pau nas férias, passas longe da tragédia, decreta que seus ministros e os marajás do serviço público sentarão seus ilustres traseiros nas poltronas da primeira classe nos voos internacionais, com as passagens às custas das pessoas acima mencionadas… então eu confesso ao leitor, seja lá quem for, que sinto pena do meu povo e do nosso país.

O enterro do lorde e a imortalidade do vagabundo

Neve nova sobre os Alpes Suíços. O inverno começara há quatro dias. A luz filtrada por nuvens cor de giz projetava sombras pálidas das lápides nas alamedas do cemitério de Corsiers sur-Vevey. Coroas de flores perfumavam o luto em torno da cova aberta no cascalho. Ciprestes solenes decoravam o cenário da cerimônia simples como um filme do cinema mudo!

Sir Charles Spencer Chaplin, Cavaleiro do Império Britânico, Oficial da Legião de Honra francesa, Doutor Honoris Causa pela Universidade de Oxford, morrera de infarto cardíaco, durante o sono, aos 88 anos, no domingo, 25 de dezembro de 1977. Talvez no último sonho ele interpretasse a pantomima predileta do seu alter ego vagabundo: chutar o traseiro de alguém. Eu era correspondente do Jornal do Brasil na Europa, cobri as exéquias do lorde e revivo a vida do moleque inglês que saiu de um orfanato em Londres para se consagrar na América entre as personalidades mais importantes da história do cinema.

Charlie, aos sete anos, no meio da foto no orfanato Hanwell – Domínio Público

A Radio Télévision Suisse divulgara o apelo de privacidade da viúva Oona e a ausência de curiosos foi exemplar. Mas a minha cambada não tem jeito. Duas dúzias de repórteres e fotógrafos disputavam a fila da frente no confinamento reservado para a imprensa. Eu devolvi uma cotovelada nas costelas e não pude seguir a recomendação que resume a existência do falecido. Não dava para sorrir. O adeus do Vagabundo entristeceu até Papai Noel. Desde então, todo Natal me lembra do gênio que fez o mundo chorar de tanto rir e a sorrir do próprio pranto. A geração Hollywood lhe deve muitas gargalhadas e lágrimas.

Em 2019, reeditei aqui as reportagens publicadas há 44 anos, numa homenagem extensiva ao também falecido JB. Apenas onze leitores, nenhum comentário e zero compartilhamento me obrigam a pedir desculpas póstumas a Charles Chaplin e ao meu velho jornal. O desempenho dos sites influi no vale tudo da www e @WordPress também merece uma satisfação. Celebridades comoventes e personagens imortais imortais atraem a curiosidade geral, então atribuo os poucos acessos a este site ao tamanho do texto. Mas a falta de tempo, ou preguiça de ler, encolhem as ideias e o vocabulário. Tais fatos, vc. tb. sabe, kkk, empobrecem a cultura. Quanto à qualidade do texto, recorro ao talento do xará francês de Chaplin, Charles Aznavour:

Ce n’est pas ma faute mais celle du public qui n’a rien compris” – a culpa não é minha, mas do público que não entendeu nada.

A ciência do humor e o humor da ciência. Foto pirata Facebook

O fiasco das nossas crônicas eletrônicas dimensionam, por contraste, o sucesso das filmagens com câmeras de madeiras, sobre tripés bambos como os bêbados interpretados por Chaplin. Um encontro entre ele e Albert Einstein resume o assunto: o autor da Teoria da Relatividade enalteceu o artista por ser entendido em todos os idiomas, sem dizer uma palavra. “A sua glória é ainda maior – respondeu Chaplin – a humanidade o reverencia e não compreende nada do que você diz.”

Um século depois, Einstein se agiganta entre entre os gênios, apesar da equação E=mc² ser entendida por quase tão poucos quanto os seguidores deste site. E o talento mudo de Chaplin é cada dia mais eloquente nesse mundo estridente, surdo ao bom senso. Historyleaksbrasil perde no placar do sucesso por bilhões de fãs do Vagabundo a onze leitores, e isso só não é mais engraçado porque a plataforma @WordPress abduziu todas as fotografias que fiz do enterro.

O JB do dia seguinte ao enterro

Até as fotos publicadas no Jornal do Brasil foram substituídas por quadros em branco com a legenda “Esta imagem é um atributo vazio. O nome do arquivo é images png...” e um número quilométrico. Pouco depois de rascunhar o que você acaba de ler, a WP substituiu os espaços das imagens removidas pela moldura do comando de seleção para ilustrações, uma manobra sem graça. O que vem ao caso é a suspeita de que o exemplo de Chaplin na conscientização social e política através da arte continua a incomodar, por exemplo, aos fanáticos de direita e esquerda. Sim, não há mímica ou equação que os faça entender a necessidade da convivência entre o sim e o não. Há também os chauvinistas inconformados até até hoje com as lições de moral dadas por um comediante estrangeiro ao Tio Sam.

Chaplin foi perseguido na América por ser mais querido do que o presidente e ter uma causa. Aliás, várias, embutidas na sua comédia, com a coragem de insistir e insistir e insistir e insistir e insistir e insistir além do limite patético. O Vagabundo Charlie elevou o sentimentalismo barato às raias do sublime, identificando-se com os mais simples uma maneira inteligente. Ele arranjava um problema e o seu personagem tinha que sair da enrascada. A massa adorava as sátiras do homenzinho de pés espalhados contra as arrogâncias, preconceitos e desigualdades do sistema. A mensagem de justiça social é especialmente contagiosa quando propagada por um ídolo dos humilhados e ofendidos. Então, o vagabundo com trejeitos aristocráticos tornou-se insolente demais e a classe dominante o chutou do país.

A elite esculachada pelo sósia bêbado de um ricaço no filme Classe Ociosa (1921) engoliu a caricatura da própria imagem até instigar o descarte político da sua… posso usar a palavra nêmesis? Obrigado! Foi só pra provocar a turma do kkk! A vingança começou atacando a recusa de Chaplin em se naturalizar no país de imigrantes. Depois, as distribuidoras de filmes foram ameaçadas. Houve atentados contra salas de exibição e gorilas contratados em várias cidades dispersavam as filas das bilheterias. Os tacos de baseball também eram úteis fora de campo, nos filmes de gangsteres e nas tacadas do submundo institucional.

O cinema falado já aposentara o Vagabundo quando Chaplin embarcou em Nova Iorque para lançar Luzes da Ribalta na Europa, em setembro1952. Logo que o HMS Queen Elizabeth cruzou o limite das águas territoriais, o ministro da Justiça, James McGranery, enviou um telegrama condicionando o regresso de Chaplin a outros inquéritos além dos que ele já respondera, com vereditos condenatórios decididas antes dos julgamentos. Mais processos complicariam a liquidação dos negócios de Chaplin nos Estados Unidos e, pra variar, ele ficou mudo, só comentando o assunto na autobiografia publicada em 1964.

Minha volta àquele país, infeliz ou não, tinha poucas consequências para mim. Eu gostaria de ter-lhes dito que desejava me libertar da atmosfera de ódio o quanto antes, pois estava saturado dos insultos e da pompa moralista americana.”

Mr. S. Foto oficial. Domínio público.

O expurgo ocorreu no mandato de Harry S. Truman, o vice e sucessor de Franklin Delano Roosevelt, cuja humanismo progressista viabilizou o enfoque social dos filme de Chaplin, desde a Grande Depressão até a II Guerra. FDR odiava Mr. S. mas na sua quarta candidatura, em plena II Guerra Mundial, o Partido Democrata tinha que atrair os conservadores e neutralizar os nacionalistas fanáticos. A solução foi Truman, o dono de um armarinho em Kansas City que se filiou à Ku-klux-Klan no Missouri e ascendeu na política como capacho de Tom J. Pendergast, o big boss da corrupção e das fraudes eleitorais na “máquina” do Centro Oeste. A morte súbita de Roosevelt em abril de 1945 empossou Truman. Quatro meses depois ele ordenou os bombardeios atômicos de Hiroshima e Nagasaki. O S. da sua assinatura não era abreviação, porém nome próprio, de origem obscura. O certo é que sadismo se escreve com S em todos os idiomas.

Após expelir Chaplin, governo obstruiu a sagração dele como Cavaleiro do Império Britânico. O boicote foi atribuído aos aspectos diplomáticos da Guerra Fria, mas o propósito era camuflar a fobia ideológica e cultural americana no contexto da caça à bruxas de Hollywood. Ele fora o primeiro da lista da honraria em 1931 mas o stablishment o descartou sob a justificativa de não ter combatido na Primeira Guerra Mundial, encerrada 13 anos antes. A França relutou em condecorá-lo por motivo semelhante, mas rendeu-se à evidência de que o recruta do filme Ombro Armas (1918) contribuiu mais do que os tiros para a derrota moral alemã, e concedeu-lhe a Cruz de Cavaleiro da Legião de Honra, em 27 de março de 1931.

A Rainha e o Sir incapaz de se ajoelhar como exige o protocolo. Foto Pinterest

Chaplin voltou à lista nobiliárquica em 1956 e a Corte de St. James recuou outra vez. Em linguagem diplomática, conveniências bilaterais no contexto da Guerra Fria. Na crivo da História, submissão aos interesses ideológicos americanos. O veto persistiu até Elizabeth II ungir Sir Charles Spencer Chaplin como Cavaleiro do Império Britânico numa cadeira de rodas, aos 86 anos, em março de 1975; ou seja, 44 anos após o refugo da primeira condecoração. A homenagem tardia fez justiça ao vagabundo com trejeitos de lorde, cuja crítica nos estimula e o otimismo comove. Então, eu pego o bonde verde da adolescência, salto na Cinelândia, compro ingresso no Cine Odeon. As luzes diminuem, a cortina de veludo vermelho se abre em duas partes, a plateia escurece, o público faz shsishsishs.

Tempos Modernos, cena clássica grevista por engano

Um relógio com números em algarismos romanos enche a tela e os créditos deslizam sobre os ponteiros apresentando “Tempos Modernos. Uma história da indústria – do empreendedorismo individual – cruzada humana em busca da felicidade”. A juventude também passa na tela da memória, as luzes da plateia acendem, cortina se fecha. Aí eu saio do sonho no Cine Odeon para a realidade no cemitério de Corsiers-sur Vevey, onde a primeira pá de terra sobre o caixão do Sir Charles Spencer Chaplin é despejada por um policial, o inimigo coadjuvante da glória do Vagabundo. Essa exigência da Lei Suíça ironizou o adeus ao plebeu agraciado com as maiores honras da França e da Inglaterra.

A saudade convertida em primavera no inverno suíço – foto do autor/JB

Ele sofria do Mal de Alzheimer e uma gripe o debilitara a ponto dele não ter forças para desembrulhar seus presentes. O Dr. Henri Perrier atestou o óbito na manhã do Natal no Solar de Ban, em Corsiers-sur Vevey, refúgio da família desde o seu banimento da América. Quatro limusines fúnebres trouxeram o caixão e as corbeilles de rosas margaridas, de rosas, tulipas, cravos, lírios, gerânios, antúrios, avencas e palmas de primaveras distantes. A viúva Oona surgiu de um Rolls Royce negro, com o rosto oculto sob véu.

A tristeza de Oona no adeus ao seu Charlie após 34 anos de casamento. Foto do autor para o JB

Outra limusine trouxe os filhos, menos os mais velhos, Geraldine e Michael. O rapaz chegou a pé, de blazer com botões dourados e calça azul, traje mais adequado a um ambiente náutico. Embora a Suíça seja um país discreto como as contas estrangeiras nos seus bancos, alguém espalhou que Michael fugira na adolescência com uma amante sete anos mais velha e, após resgatá-lo, Chaplin aplicou-se uma surra nada cômica.

A primogênita Geraldine não apareceu no velório nem no enterro. Tabloides sensacionalistas publicaram que ela lamentava ter sido enclausurada num convento aos 15 anos e que o pai nunca assistia às suas apresentações como bailarina, associando o fato ao bloqueio artístico de Oona, que tinha 18 anos quando eles se casaram. O noivo era 36 anos mais velho, diferença de idade que não os impediu de gerar oito filhos.

Geraldine, não. Josephine e Victoria, sim. As caçulas da família fizeram pontas no último filme, A Condessa de Hong Kong (1966), um fracasso apesar do elenco estrelado por Marlon Brando e Sofia Loren. E Brando descreveu Chaplin como um egocêntrico mesquinho, especialmente em relação a Sidney Earl, seu filho com Lita Grey, também coadjuvante no filme. Porém os motivos mais íntimos da ausência de Geraldine no cemitério de Vevey estavam prestes a serem enterrados no caixão de pinho branco.

Seis filhos cercavam Oona e o reverendo anglicano Richard Thompson encomendou a alma numa voz sumida. O paparazzi que eu conhecera na véspera cercando a mansão da família me cutucou as costelas e fez mímica de um pontos de interrogação. Eu também não tinha escutado e me livrei da pergunta com o arremate óbvio: “Descanse em paz!” O cara tinha bom humor e respondeu num inglês napolitano: “Eu ou o defunto?”

Agentes funerários removeram as flores, a manta negra e arriaram o caixão em câmera lenta. Um policial perfilou-se em continência, de cabeça erguida, indiferente à chuvinha gelada que começara. Outro policial pegou a pá espetada ao lado da cova e eu desconfiei de uma desforra dos chutes do vagabundo dera nas bundas dos seus colegas. Convenhamos no sarcasmo do agente do sistema que o defunto insultou até as pessoas chorarem de tanto rir ter jogado a primeira pá de terra. Depois o policial Paul Gaillad disse que apenas obedecera à lei Suíça. O ritual era sua obrigação e eu merecia um chute no traseiro pela suposição maliciosa, mas calei o bico na terra dos cucos.

Germaine e Buenzold, os coveiros. Ao fundo (dir.), o policial Paul Gaillard. Foto do autor/JB

O enterro do “príncipe eloquente do silêncio” (definição do jornal France Soir) demorou uns 15 minutos. A família saiu antes do soterramento do caixão e eu fiquei garimpando detalhes no cemitério vazio. Os coveiros se chamavam Germain Paul e Buenzold Etienne. Após entupirem a sepultura eles me ofereceram um copo de vinho branco, seco, no pequeno depósito de ferramentas. Disseram ser vinho das parreiras de Vevey e perguntei-lhes se a morte era mais ou menos trágica no enterro de um comediante.

Non – respondeu Germain Paul – Se ele fosse jovem seria uma tragédia. Mas monsieur Chaplin estava bastante velho e, afinal, sempre chega o dia de morrer. Aqui ele era uma pessoa comum. Nós o víamos muitas vezes.” Comentei que a maioria dos presentes era de jornalista, personagens que também perseguiram o vagabundo toda a vida. O total entre familiares coveiros, policiais e colegas não passava de 50 pessoas. Buenzold Etienne, o mais calado, encheu o meu copo outra vez e resmungou que suíços só vão onde os chamam. Respondi que se eu tivesse esperado um convite não provaria o vinho delicioso daquela terra.

Muito obrigado, senhores, pelo vinho e o pão no sepultamento de tantas lágrimas e sorrisos. Eu nunca imaginara gostar de um cemitério e o de Corsiers sur-Vevey ficou no meu coração. O pessoal da funerária havia levado a manta negra do féretro, deixando as flores, e elas estavam molhadas. Pareciam tristes. Não sei dos outros repórteres, mas no meu caso, os assuntos sempre morriam após serem publicados, mas os melhores ressuscitam da memória. Lá se foram 44 anos e exumo o adeus ao Vagabundo porque a sua mensagem continua atual: “Sorria!”

Carta para o bom velhinho

Original Japan Times- Alteração pirata do autor HBY

Querido Papai Noel, saudações polares:

Eu nasci sem pai nem mãe, aí uns portugueses me encontraram numa praia da Bahia e perguntaram o meu nome. “Não sei” – respondi. Então me deram um monte de apelidos baianos: ilha disso, terra daquilo, gigante pela própria natureza, florão da américa e até paiszinho de merda. Acabei com o nome de um pau e quando querem saber se eu gosto mais do papai ou da mamãe, digo a verdade: gosto mesmo é de comida.

Eu passo o dia de pires na mão; eu e os meus 15 milhões de desempregados, mais 40 milhões de invisíveis. O governo os declara como invisíveis mas todo mundo vê milhões com a flanela na mão. Eu alugo o espaço público nas cidades, limpo para-brisas nos sinais, de vez em quando vendo umas garrafinhas de água da torneira, e, enquanto o rapa não vem, tô com a mercadoria na calçada. Vivo de bico. Me viro. Sou sivirista sim senhor, senão os barrigudinhos que a vizinha ficou tomando conta vão chorar de fome.

Mas um dia fico esperto, grilo um pedaço da terra pública, toco fogo no mato, cerco a globo, digo, a gleba, compro o pessoal do cartório, um bocado de políticos, de ministro, de juízes e de burocratas. Tem muitos à venda no mercado. Pensando melhor, talvez eu me candidate a vereador, prefeito, deputado ou senador. Tenho até o lema da campanha: eu também sou ficha suja! Que tal? Enquanto não arranjo um patrono nem uma vaga no gabinete do filho dele pra dividir a rachadinha, continuo na corda bamba, como todo bom oportunista.

Charge pirateada por uma causa justa

Tenho chances de ser eleito, meu bom velhinho, afinal atrasei o pagamento de um bocado das contas, esqueci prestações, estourei o cartão de crédito, estou pendurado SPC, o banco agiota não larga do meu pé. Isso tudo me identifica com a maioria. Vale voto. Mas não roubei, não escondi dinheiro na cueca, não corrompi ninguém nem fui corrompido. Muito menos legislei em causa própria, ou participei de negociatas parlamentares.

Pior ainda: nunca obstruí a justiça ou ataquei a imprensa; jamais menti para o povo, nem ensaiei um golpe contra a democracia. Não fui contra a ciência, não impingi panaceias que mataram muita gente. Não sou genocida, não ofendo homossexuais, não insulto a esquerda, não elogio torturadores, não sou ultra reacionário, não estimulo desmatamentos na Amazônia, não sou contra a vacina nem faço campanha contra o uso de máscara, nunca defendi a contaminação de rebanho, não acendo uma vela para Deus e outra pro bispo Edir Macedo, e também não sei andar de motocicleta. Preciso de mudar rápido, ou perco a eleição.

Mudo ou acabo com os privilégios dos políticos que aprovaram cinco bilhões e meio para o fundo eleitoral. Vão se eleger com o dinheiro dos mais pobres para ficarem mais ricos. Se o povo cair na real e não vota neles, aí sobrarão cadeiras no Congresso, aquele portal solene para imoralidade institucional, a partir das emendas secretas, dos fundos eleitorais e dos desvios de bilhões do orçamento para os currais de votos.

Todo Natal o Senhor fica de saco cheio com tantos pedidos, então vou reduzir a lista ao mínimo indispensável. Se eu for atendido, o meu presente será extensivo a todos os brasileiros e esqueço a candidatura, porque a política deixa de compensar. Papai Noel, eu quero apenas que se cumpram as leis e que os infratores sejam punidos. Só isso. Muito obrigado, do seu netinho: Brasil.

P.S. Não vou deixar o sapatinho na janela, porque roubaram o que deixei no ano passado.

A moça do tempo, o AI-5 e o clima do golpe

A moça do tempo trabalha em pé, diante do mapa meteorológico, sempre objetiva, útil como exige o bom jornalismo. Chove-não-chove, golpistas e retardatários políticos degradam o clima político brasileiro, mas a moça do tempo não pode se envolver em precipitações dessa natureza. Então convém recapitular o dia que choveu m* no território nacional.

Charge da pirateada da @Revista Piauí.com por uma causa nobre

A novidade é que o presidente Jair M* Bolsonaro, sucessor retardado do golpe de 1964, distorceu a isenção da moça do tempo, atribuindo ao “calor do momento” os seus insultos e ameaças à democracia no 199º aniversário da Independência do Brasil. A Justiça(?) ignorou os crimes explícitos na instigação pública contra o Supremo Tribunal Federal e o Congresso aplaudiu o desfile de tanques na Praça dos três Poderes, em Brasília, DF, feito para exibir o controle das Forças Armadas e intimidar as instituições civis.

A maioria “dos filhos deste solo” ignora, “ó pátria amada,” que há mais militares aquartelados no governo Bolsonaro do que nos mandatos de todos os ditadores do golpe de 1964. O alarme democrático dispara quando o próprio chefe de Estado desmoraliza o “florão da América,” declarando escatologias do tipo “Caguei pro STF,” mas a M* logo escoa pelas valas das carências e o “povo heroico,” na fila do Auxílio Brasil, esquece rápido as boçalidades do presidente. No momento deste calor, “verás que um filho teu não foge à luta” e refresca a memória do “gigante pela própria natureza” sobre uma atitude meteorológica notável da imprensa brasileira.

JB 14/12/68. Os quadrinhos históricos

Na época dos jornais de papel os quadrinhos ao lado do título, no topo da primeira página, eram chamados de “olhos.” O olho esquerdo do JB resumia o clima no Rio de Janeiro, chamando para a coluna do tempo. O olho direito informava o número de páginas, de cadernos e algum destaque da edição. Sendo o redator mais novo eu redigia os olhos e outras banalidades, enquanto os veteranos se encarregavam dos assuntos importantes. Eu adoraria ter escrito os olhos da edição daquela sexta-feira, 13 de dezembro de 1968, quando o Conselho de Segurança Nacional decretou o Ato Institucional n° 5 do regime militar de 1964. Mas o editor chefe assumiu a minha tarefa e os olhos do Jornal do Brasil brilharam nas trevas da censura que a acabava de ser oficializada.

Olho esquerdo na edição do AI-5

O locutor da Voz do Brasil ainda irradiava resolução do Conselho de Segurança Nacional quando os censores fardados invadiram a redação. Eram oficiais da Marinha e da Força Aérea, nitidamente constrangidos pela obrigação, sem saberem quem fazia o que nem onde ou como as coisas aconteciam. Aquilo atrasou a impressão e quem visse algum zumbi na Av. Rio Branco, com olheiras negras e dedos amarelos de nicotina, podia apostar: era gráfico ou jornalista.

A reunião do AI-5, na sexta-feira 13, presidida pelo marechal que os redatores se recusaram a identificar.

A temperatura “Max.: 38°, em Brasília, Mín.: 5º, nas Laranjeiras” se deve ao número do Ato assinado à tarde pelos 25 integrantes do Conselho de Segurança Nacional na sede do governo do Rio, na época, Estado da Guanabara. A ideia do protesto surgiu na reunião das “putas velhas” – como chamávamos os veteranos – para decidir as notícias da primeira página e a manchete da edição. Lá se foram 53 anos e vieram as gerações X, Y e Z, mais interessadas nos memes e games eletrônicos.

Entre um touch screen e outro é necessário relembrar que o AI-5 suprimiu direitos os direitos humanos, a partir das liberdades fundamentais. Impôs as prisões arbitrárias, o exílio, o confisco de bens e a tortura. Estabeleceu o absolutismo como prerrogativa de Estado, em nome da democracia, sob a alegação de salvar a sociedade cristã do comunismo ateu. Os brasileiros estavam longe de sonhar que elegeriam democraticamente um capitão da direita terrivelmente evangélica, apologista da tortura, herdeiro ideológico do general Ernesto Geisel, o primeiro ditador linha dura evangélico do nosso “lábaro estrelado.”

Os olhos da tiragem n°213 do Ano LXXVIII do Jornal do Brasil são atribuídos ao editor-chefe, Alberto Dines, que, por ironia, era estrábico. Eu lhe devo a minha inclusão na equipe notável e ele merece o respeito da geração que modernizou a imprensa brasileira, porém a audácia dos olhos poderia resultar no confisco da edição e a palavra final coube ao diretor presidente, M. F. do Nascimento Brito.

O marechal marcha em passo de ganso

A foto principal do JB no sábado 14/12/68 estampa o passo de ganso do ditador na cerimônia de entrega de espadins aos guardas-marinha na Escola Naval, palco do Último Baile do Império, (que ironia) na Ilha das Cobras. Não o identifico em homenagem aos profissionais que se recusaram a redigir o nome do gorila que cassou os direitos civis dos brasileiros e instituiu a tortura. Os censores cortavam o que quisessem mas não podiam acrescentar nada, nem a patente do marechal ditador que nós rebaixamos a general.

Os censores foram sacaneados com as sutilezas da edição, cuja foto no pé da primeira página lamentava a expulsão de Garrincha… “quando o Brasil vencia o Chile na Copa de 62”. E a legenda da ilustração da reportagem sobre a “perda da compostura e dignidade” do presidente da Câmara, José Bonifácio”, justifica a consagração do Jornal do Brasil como lenda da imprensa:

O colored Pelé e o alvo Jeftrets se despem, após renhida porfia, diante de operadores de câmaras fotográficasestampava a legenda bizarra, enfiada goela abaixo da censura .

A lucidez do olho direito

A legenda também se referia supostamente a Copa do Mundo de 1962, dois anos antes, com o detalhe do colored Pelé e do alvo Jefrets não aparecerem na foto até porque os dois jamais se enfrentaram. Pelé fez um gol nos 2 x 0 na estreia contra o México, sofreu um estiramento na virilha no jogo contra a Tchecoslováquia e o tal Jefreys nunca existiu. Outro detalhe pouco mencionado é o olho direito, mais contundente que o da previsão do tempo. Essas outra sutilezas resultaram na perseguição da ditadura ao JB, em benefício do seu maior concorrente, O Globo.

JB – pg. 2 – cabeça da pesquisa que driblou a censura

O regime não estava totalmente aparelhado para impor o AI-5, a censura ainda “interna” foi atribuída à própria imprensa. Os censores podiam ser os mais cultos da Forças Armadas, é provável que fossem leitores do JB, mas a indecisão típica das transições institucionais permitiu o retrospecto do golpe. A página dois do primeiro caderno publicou uma pesquisa excelente sobre a sexta-feira 13 de março de 1964, data do comício de João Goulart na Central do Brasil, Rio, gota d’água para o golpe militar o golpe do 1º de abril, o dia da mentira.

O comício da Central foi manipulado para justificar a derrubada do governo legítimo de Jango Goulart, planejada pela Central Intelligence, vulga CIA, no governo de Lyndon Johnson, através da Operação Brother Sam. Jair Bolsonaro não se destaca pela cultura ou capacidade intelectual, mas os seus sete mandatos federais lhe deram a oportunidade visitar a biblioteca do Congresso. É possível que soubesse das coincidências convenientes ao “calor do momento” em que cagou para o Supremo Tribunal Federal.

Fedeu geral! O candidato a ditador pretendia implodir as urnas eletrônicas nas eleições de 2022, meio século após o deputado Márcio Moreira Alves, do extinto MDB, acender o pavio do AI-5 instigando o boicote aos desfiles das Forças Armadas no 7 de Setembro de 1968. No desfile de 2021, além do povo faltou o apoio dos coronéis para o golpe.

A reação democrática nas redes sociais desmobilizou o personalismo evidente na ausência das reivindicações contra a corrupção, o desemprego, os desmatamentos, a fobia ambiental, o boi verde, a espiral inflacionária, o negacionismo científico, o incentivo estridente ao kit Covid, os insultos à Organização Mundial da Saúde, o charlatanismo dos tratamentos com vermífugos, o estímulo às aglomerações, a contaminação de rebanho, o combate às máscaras, mentalidade bélica, os elogios à tortura, a veneração a Donald Trump, a propagação das fake news, o esculacho da imprensa, os deboches contra a pandemia.

Os insultos do presidente contra os tribunais supremos e seus ministros, além da instigação à desobediência civil, foram muito mais graves do que o discurso de Jango ou o apelo civil de Márcio Moreira Alves, nas respectivas sextas-feiras 13. Porém a maioria no Congresso troca a honra, a dignidade e a justiça por vantagens eleitorais, favores corporativos e as verbas das emendas parlamentares e do orçamento secreto. Justificar abusos pelo “calor do momento” é infame como o patriotismo de segunda mão, travestido de verde e amarelo.

Lamento chover no molhado, mas as distância políticas e ideológicas são imensa entre os caras-pintadas das Diretas Já e da militância de motoqueiros, no clima conturbado pelo chato de galochas com a cabeça quente. Enfim, o tempo continua escuro. Temperatura desagradável. O ar está contaminado. O país é varrido pela pandemia reacionária. Max. 38°. carga dupla nos assaltos do dia a dia. Min. abaixo da crítica. Chove cobras e lagartos em Brasília, as eleições de 2022 prometem mais chuvas de M* e a moça do tempo recomenda: vista um casaquinho e não esqueça do guarda-chuva.

P.S. Na lenda das redações, jornalista só é notícia quando morre. Muitos colegas daquela edição já morreram e eu quero homenageá-los, agradecendo a honra de haver integrado a equipe que foi, na época, a menina dos olhos da imprensa brasileira. Saudades de Alberto Dines, Carlos Lemos, Sérgio Noronha, José Silveira, Hélio Pólvora, Emile Zola, Roberto Quintaes, Charles Cofield, Luís Carlos Mello, Etienne Arregui, Almeida Filho, Tobias Pinheiro, Anderson Campos… representantes de todos profissionais que ajudaram o país a atravessar o “Tempo negro, de temperatura sufocante, ar irrespirável…”

O rabo made in BR

Espalha: a verdade não falha! Foto HBy

Diga a palavra rabo e a maioria dos brasileiros pensa em bunda. No nosso caso, a fixação prioritária é o rabo de palha made in BR deixado na 26ª. Conferência das Nações Unidas Sobre as Mudanças no Clima, em Glasgow, Escócia. O povo, porta voz de Deus, define rabo de palha como ficha suja, culpa no cartório, sujeira no rastro, má fama. Qualquer reclamação deve ser encaminhadas à Academia Brasileira de Letras. Historyleaksbrasil prefere as palavras inteiras, todas as sílabas da verdade.

Não confunda rabo de palha com o ícone anatômico nacional. Arte e foto do autor.

O presidente Jair Messias Bolsonaro participava da cúpula anual do G20, em Roma, a três horas de voo da Escócia, mas não teve coragem para encarar sua rejeição internacional na COP- 26. Preferiu o turismo na Itália, onde foi alvo de protestos furiosos, e fez-se representar pelo ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite, um ruralista improvisado como defensor da natureza, que concluiu o seu discursos na cara de pau:

O futuro verde já começou no Brasil.”

Brasileiros à sombra do Pau Brasil – Praça da Cidadania, Natal, RN, 2021 – Foto HBy

Cafeicultor de sobrenome lácteo, membro destacado da Sociedade Rural Brasileira, consultor da indústria farmacêutica, o Sr. Joaquim Leite aquarelou o Brasil como se a fina flor da ecologia fosse um buquê de ignorantes sobre a nossa tradição predatória. A primeira providência do conquistador português foi lavrar um pau para fazer o cruzeiro que plantou na Terra de Santa Cruz. Desde então, nós, penitentes da ecologia, carregamos aquela e outras cruzes feitas com os 87,6% devastados da Mata Atlântica. O que resta definha ao longo da costa. É mais fácil encontrar a árvore da nossa identidade numa praça urbana do que no mato, mas o ministro estava ali para reflorestar a realidade.

Jair Bolsonaro nunca perdeu uma chance exposição e se fez substituir no fórum mais visível do ano porque plantou insultos a granel no passado e colhe a rejeição geral. Nações e entidades atreladas ao destino da Amazônia contestam as atitudes do presiente como se a floresta fosse patrimônio exclusivo do Brasil, onde o termo meio ambiente significa, ao pé da letra, ambiente pela metade. O fruto do pé de letra é uma ambiguidade inteira.

Vitória Régia” – Acrílico sobre cartão, Jorge Eduardo/2003- Foto HBy

Apenas 60% dos 6.7 milhões de Km² da Floresta Amazônica se encontram no território nacional; nós partilhamos o “pulmão do mundo” com a Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, as Guianas, o Suriname e resto do planeta. Devemos satisfações a todos que respiram, e os estadistas foram à COP para se explicar.

Na berlinda Joe Bidem, presidente dos Estados Unidos, o maior emissor de CO2, principal gás do aquecimento tóxico que cozinham a Terra. Mr. Biden teve peito para enfrentar os outros 195 países signatários do Acordo de Paris, enquanto o Sr. Bolsonaro, muito macho para insultar a imprensa no Brasil, considerava as advertências como a do seu vice, o general Hamilton Mourão:

“Sabe que o presidente Bolsonaro sofre uma série de críticas. Então, ele vai chegar em um lugar em que todo mundo vai jogar pedra nele…”

Não chegou onde supostamente seria apedrejado, e a justificativa oficial foi pífia como uma bolinha e papel: “Por motivo de agenda, o presidente da República participará da COP 26 por meio de vídeo, gravado e já enviado aos organizadores do evento.”

O comunicado empalhou ainda mais o rabo por duas semanas, na quais a agenda do presidente se resumiu ao turismo na Itália. Ele fugiu do evento definido pela ONU como “A corrida contra o tempo para salvar o planeta,” preocupado com o vazamento do relatório do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais- Impe – acusando o abate de 13 235 Km² de matas virgens, entre agosto e julho (20/21): recorde dos últimos 15 anos.

Charge de Renato Aroeira, pirateada por justa causa

Jair Bolsonaro escondia os 22% desmatados em 2020, desmentindo o discurso de Pinóquio que Joaquim Leite repetiu em Glasgow. Mas o governo também diz verdades: “É Simples assim, senhores: um manda, outro obedece” – pontificou o segundo dos quatros ministra d Saúde, general Pazuello, enquanto receitava Cloroquina, obedecendo ao boicote ás vacinas. Jair M. Bolsonaro mandou o ministro do 1/2 ambiente ser “apedrejado” em seu” lugar, com medo de mais reações como as dos italianos.

Sterco alla prefetura

I cittadini arrabiatti pela concessão da cidadania ao capo braziliano estercaram a prefeitura de Anguillera. As máscaras nem a perda do olfato adiantaram contra o fedor de M. no ar. O futuro verde/BR amarelou e Bolsonaro fugiu das vaias qualificadas da COP26. A caatinga perfumada do Planalto Central não aliviou a atmosfera no Conselho Nacional da Amazônia Legal, cujo coordenador, o vice presidente Hamilton Mourão botou lenha no fogueira:

O ministro Joaquim Leite é a cara do combate ao desmatamento. Ele sabe muito bem que o Ministério do Meio Ambiente é o carro chefe disso aí, e ele está convicto que tem que haver uma ação permanente … para que a gente cumpra a nossa obrigação nacionalmente determinada de chegar a 2028 tendo zerado o desmatamento ilegal.”

Nenhum dos presentes à prestação de contas da Amazônia defendeu o ministro. Um colega questionou o envolvimento das Forças Amadas na fiscalização e a impunidade para aos crimes ambientais e o general Mourão ofereceu-se como mártir na fogueira da opinião pública.

Se você quer um culpado, sou eu. Não vou dizer que foi o ministro A ou ministro B. Fui eu que não consegui fazer a integração (das Forças Armadas com os órgão civis, Funai etc.) de forma que funcionasse.”

Uma confissão honesta é rara em Brasília, mas, ao substituir nomes por letras, o vice presidente omitiu as ausências dos Ministro do Meio Ambiente, da Ciência e Tecnologia e da Justiça. Joaquim Leite, Marcos Pontes e o da Justiça eu também esqueci, são membros do Conselho da Amazônia, cada qual com seu respectivo rabo de palha, inclusive o do general, revelado na sua candidatura a vice de Jair Bolsonaro:

O general Mourão às ordens do capitão Bolsonaro: “Quem manda sou eu, certo?” Imagem pirateada Metrópoles

O Brasil herdou a indolência dos indígenas e a malandragem dos negros… Ainda existe o famoso complexo de vira-lata no nosso país, infelizmente. Temos que superar isso. Temos uma herança cultural, uma herança em que muita gente gosta de privilégio. Existe uma tendência ao camarada querer o privilégio para ele. Essa herança do privilégio é uma herança ibérica. Temos uma certa herança da indolência, que vem da cultura indígena. Eu sou indígena, minha gente. Meu pai é amazonense e a malandragem, Edson Rosa, nada contra, mas a malandragem é oriunda do africano. Então, esse é o nosso cadinho cultural. Infelizmente, gostamos de mártires, líderes populistas e dos macunaímas.”

Edson Rosa foi o primeiro negro eleito vereador em Caxias do Sul, onde o general garimpava votos. Suas declarações emolduram a malandragem e a indolência ambientalista oficial. Mas a esperança será a última vítima da moto serra. Ainda há o que comemorar e Jair Bolsonaro perdeu a chance devolver algumas pedradas na COP26.

A notícia do momento era a Operação Dó, Ré, Mi, do Ibama e da Polícia Federal contra nove empresas do Espírito Santo, Minas Gerais e São Paulo que faturavam o abate clandestino de Pau Brasil e Jacarandá. A madeira mais nobre da flora remanescente era usada na fabricação dos arcos para instrumentos de cordas apreendidos antes das remessas ilegais para a Alemanha, China, Coréia do Sul, Estados Unidos, França e Japão. Os dois principais responsáveis pelo efeito estufa, e outros dois países enfáticos nas suas acusações amazônicas, estimulam a devastação ao facilitarem o contrabando de… Me desculpem, estou escrevendo com raiva. Meia dúzia de agentes americanos participaram do Operação Dó-Ré-Mi.

O autor confessa que também desafina, espantando os gatos com um aro de Pau Brasil. Foto de Glória Alvarez.

A Convenção sobre Comércio Internacional das Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção regula a proteção da matéria prima dos melhores instrumentos sinfônicos. Fora do palco, os virtuoses são receptadores (inocentes?) da forma mais requintada de devastação do que resta da Mata Atlântica. Arcos de violino eram vendido por até US$ 2 600,00 dólares, a bagatela de R$ 14.600,00. Quer madeira de primeira? Plante, cultive por uns 25 anos e colha conforme a lei. Detalhe: a cerda dos arcos é feita com a crina do rabo de cavalos. Rabo de palha é outra história.

Nos 13 235 Km² devastados neste ano no Brasil havia índios, plantas e animais à beira da extinção. Havia pássaros nos ninhos, onças com as patas queimadas, paca, tatus e cotias. Havia tamanduás, ariranhas, jabutis, sapos e pererecas. Uirapurus, harpias, araras, caititus e antas. Insetos de todas as cores, sapos e pererecas. Cada macaco em seu galho e, segundo o general, a encarnação de índios e negros no bicho preguiça. Criaturas que somem para sempre; espécimes da flora medicinal, ervas capazes de curar, por exemplo, a memória dos que já esqueceram o envolvimento do ministro anterior do 1/2 Ambiente Ricardo Salles. Ele desmontou dos serviços de fiscalização e controle, acobertando, registros ilegais de matas e o tráfico da madeira de derrubadas ilegais.

O aquecimento global foi a vedete da COP26 e ausência de Jair Bolsonaro, além de ocultar o recorde do desmatamento, legitimou o apelido do pavilhão brasileiro em Glasgow como “Maquiagem Verde.” Alecrim também é verde e bom para memória. Tome um chá de alecrim e não esqueça do Sr. Salles na reunião ministerial mandando “passar a boiada” dos projetos ruralistas enquanto a Covid-19 dispersava as atenções, devastando pessoas e instituições:

Tem uma lista enorme, em todos os ministérios que têm papel regulatório aqui, para simplificar. Não precisamos de Congresso.”

Jair Bolsonaro e Ricardo Salles – criador e criatura. Imagem @www1. folha.uol.com.br

O pupilo dileto do presidente extrapolou na sua arrogância, e caiu. A Polícia Federal encaminhou notícia-crime ao Ministério Público, indiciando-o por peculato, advocacia administrativa e organização criminosa no tráfico da madeira pirata apreendida da Operação Handroanthus GLO. Apesar disso, Salles negocia sua candidatura atrelada à reeleição de Bolsonaro, para passar a impunidade pela porteira dos foro privilegiado, da imunidade parlamentar e de outras rachadinhas políticas.

Em terra de madeira de lei, quem tem moto serra é rei. Semeia pastagens e planta grana no terreno fértil da corrupção. Compra deputados, senadores, prefeitos, fiscais, terras griladas; compra licenças, garimpos, cartórios, autoridades e votos. Tupã, cadê você? Os pássaros não cantam mais, os papagaio emudecem, até o arco-íris desbota na agonia da mata. Daí o imenso e inflamável rabo de palha made in BR e a ameaça da natureza morta ser o quadro do futuro.

The rat e os ratos!

Mickey Mouse completou 93 anos ontem. O mais famoso dos ratos, ícone americano, estreou nas telas em 18 de novembro de 1928 no desenho “Steamboat Willy”. Segundo o falecido Jorge Ferreira, câmera brilhante da antiga TVE, “O Walt Disney, ficou milionário às custas de um rato, um cachorro e um pato,” e a reciclagem nacional desse aforismo é a sorte vira-latas dos patos brasileiros que enriquecem as ratazanas oficiais da República.

Imagem pirata – Fool.com

Vide o Fundo Eleitoral, o Fundo Partidário, o Orçamento Secreto, as emendas de relator, as emendas individuais, as ajudas de custo, as verbas de representação, o auxílio moradia, os automóveis com motoristas, a restituição dos combustível, das passagens aéreas, as rachadinhas nos gabinetes, os banquetes e as mordomias… além dos salários de marajás, os recessos, férias dobradas e o cafezinho! Daí esse estranho ruído de dentes nos orçamentos, nas licitações, nos palácios, nas repartições, nas estatais, nos cartórios, nas prefeituras, nas câmaras e assembleias. Mas as eleições se aproximam, meu caro Mickey, e as urnas podem virar ratoeiras.

Cada King Kong no seu galho

1933 -Acervo da RKO Pictures sem reclamação de copyright. Domínio público

 O cinema emocionou o Século XX até a televisão e o preço do ingresso esvaziarem as filas nas bilheterias. A tecnologia digital troca cenários milionários e astros temperamentais por efeitos eletrônicos, afinal um computador é mais econômico do que a multidão de técnicos, toneladas de equipamentos e quilômetros de película. As igrejas messiânicas ocupam as salas de exibição e o púlpito no lugar da tela converte a ficção em farsa. Ingresso virou dízimos no The End do ciclo cultural mais influente da história e o título do filme é “Adeus Hollywood”.

Cinema é bijuteria cultural, teatro editado na moviola, mas o público chorou de tanto rir e sorriu do próprio pranto até a www colocar as telas nos bolsos das pessoas, e o ingresso virar dízimo. Daí essa lágrima de celulose pela decadência da indústria que estreou quando os irmãos Auguste e Louis Lumière exibiram dez filmetes sem enredo,  na primeira sessão comercial de cinema. Isso aconteceu no Salon Indien du Grand Cafe de Paris, no Boulevar des Capucines, em 28 de dezembro de 1895. 

O nome de batismo da Sétima Arte, cinematographie, significa escrever o movimento e 40 curiosos pagaram um franco para ver cenas do cotidiano, sem enredo, cujo foco dava a impressão do projetor estar com conjuntivite. Mas a novidade evoluiu no sucesso que hipnotizou a humanidade e agora assistimos ao seu final melancólico. Felizmente, as emoções persistem na memória das matinês, e o que aconteceu no cine poeira de Bananal desfila no tapete vermelho da saudade.

BANANAL-SP - 87.9 FM - AQUI O SUCESSO É VOCÊ!
A pracinha de Bananal, romântica como um filme de amor

O coreto na Praça da Matriz faz Bananal parecer uma caixinha de música, ao pé da Serra da Bocaina, na divisa Rio-São Paulo. A cidade era rica, orgulhosa dos seus cafezais e fazendas históricas. Tinha até um cine-teatro, cujos espetáculos só perdiam em público para a Igreja do Senhor Bom Jesus do Livramento porque as missas eram de graça… amém!

E quem insiste em classificar os filmes silenciosos como cinema mudo é surdo ou nunca participou da algazarra nos cine poeira que o vento levou. Emílio Turco, dono do Cine Bananal, alugava fitas antigas para esticar as sessões, e sua patroa os sonorizava com maxixes e modinhas. “O piano tá com cupim… toca outra, tia!”

Giuseppe Tornatore reconstituiu essa época no Cinema Paradiso, mas o filme poderia se chamar Cine Bananal, com a mesma janelinha da bilheteria, a urna dos ingressos na entrada, os moleques iguais em todo mundo e o trêmulo foco da imagens. O projetista Pedro Luís fazia cera nas trocas dos rolos dos filmes para aumentar o faturamento do baleiro, e o baleiro só não vendia chicletes, por causa da goma grudada nas cadeiras. Mas a guerra de pipocas era certa, com estouros dos sacos de papel e tudo.

 Antes da tevê nos imobilizar no sofá, as pessoas contavam os filmes imitando os artistas. O boca a boca na praça do coreto era a rede social caipira e Emílio Turco antecipava o filme da semana com sua imaginação das mil e uma noites.  Depois, sempre alguém resmungava que o filme era outro.  O aluguel da cópia de um campeão de bilheteria só baixava depois de esgotadas as exibições nas grandes cidades, e King Kong chegou a Bananal antes da Segunda Guerra, depois de rodar um mundo e meio mundo. A estreia lotou o cinema na sexta-feira, a bilheteria do sábado foi razoável, mas por algum mistério hollywoodiano, os bananalenses deram bananas no resto da semana para o gorila já meia sola no circuito do Vale do Paraíba.

 O turco mais esperto off Istambul  alugara o filmes por duas semanas, pois os quase três mil habitantes o município não cabiam ao mesmo tempo no Cine Sta.Cecília. Diante prejuízo, Emílio Turco investiu no carro de som, mandou o Pedro Luís calar o bico, coisa difícil para o projetista que também era barbeiro, e a fila se estendeu na bilheteria para ver o novo filme que prometia fazer o King Kong virar mico.  

Pedro Luís apertou a cigarra de anúncio do começo da sessão, a molecada fez o silêncio dos grandes momentos e a primeira cena mostrou os aviões metralhando King Kong no alto do Empire State Building. O Turco Jorge invertera a ordem de exibição dos rolos, e o gorila morto em New York reapareceu cabeludíssimo na Ilha da Caveira, onde fora capturado no começo do filme original. O cartaz na fachada do Cine Bananal anunciava:

Sensacional. Eletrizante, Extraordinário. Espetacular. Não Perca… O MACACO AMERICANO” 

  O enredo que mata mata King Kong no primeiro rolo e o ressuscita no último ficou incoerente como a conversão das casas de espetáculos em templos de falsos milagres. A fonte dessa história  é o sobrinho do Emílio Turco, meu amigo, o advogado Almir Delfino, que, como todo macaco velho dos tribunais, é rico, meio careca e só mente para quebrar o galho dos seus clientes.

P.S. A reprise desta postagem é uma homenagem à memória à caipirinha mais adorável de Bananal. Clúdia Barros está entre as 611 mil vítimas fatais da Covid, a maioria devido ao retardo deliberado da vacinação pelo governo federal.