“O pequeno jornaleiro” – Escultura de Anísio Mota (Fritz), Rio 1933. Foto HBy
Extra, extra! Outro surto histérico aumentou a lista dos ataques de pelanca e agressões verbais à imprensa, perpetradas pelo responsável por dar aos brasileiros o exemplo de equilíbrio, dignidade e controle emocional.
Jair Messias Bolsonaro, 55 anos, presidente sem partido nem o decoro exigido pelo cargo, insultou a sociedade outra vez, ao ser questionado por infringir as recomendações da Organização Mundial de Saúde e o Decreto nº 64 959 do Estado de São Paulo, que obriga o uso coletivo de máscaras como defesa sanitária contra a propagação do Sars-CoV-2, vulgo covid.
Na segunda-feira, 21/06, a pandemia ultrapassava meio milhão de mortes no Brasil, 6ª maior letalidade mundial, quando o presidente desembarcou sem máscara em Guaratinguetá, SP. Ele já fora multado no Maranhão e em São Paulo (R$ 552,71) por provocar aglomerações sem usar a máscara, mas colocou-a a ser assediado pela imprensa ao sair de uma formatura da Escola de Especialistas da Aeronáutica; e o questionamento da repórter Laurene Santos, da @Rede Vanguarda de Televisão, desencadeou a ira presidencial:
“Deixa, deixa eu falar, porque eu sou o alvo de canalhas do Brasil… Dá pra calar a boa aí atrás por favor? Eu chego como quiser, onde quiser. Tá certo? Eu cuido da minha vida. Pare de tocar no assunto”.
Então presidente retirou a máscara e prosseguiu: “Você quer botar? Me bota no jonaci#nal (pronúncia truncada pelo descontrole). Vai botar agora? Estou sem máscara em Guaratinguetá. Tá Feliz agora? Essa Globo é uma merda de imprensa. Vocês são uma porcaria de imprensa.”
A repórter quis contestar mas o presidente alterou a voz:
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Parte da comitiva retirou as máscaras enquanto o chefe radicalizava o ataque à repórter: “A Rede Globo não presta. É um péssimo órgão de imprensa. Se você não assiste à @ Rede Globo não tem informação. Se assiste está desinformado. Vocês tinham que ter vergonha na cara em prestar um serviço porco que é esse o que você faz na Rede Globo. Obrigado aí.” – agradeceu com o semblante crispado por ódio, e deu as costas para a prestadora do “serviço porco”, sem “vergonha na cara.”
O presidente fora a Guaratinguetá prestigiar a formatura da Escola de Especialistas da Aeronáutica, outro remendo das suas relações puídas com as Forças Armadas no processo de sedução ao retrocesso institucional, evidente nas suas ameaças golpe. No âmbito civil, a campanha eleitoral antecipada multiplica inaugurações irrelevantes como palanques. A base da estratégia é posar como vítima das acusações ideológicas ao governo. Porém a virulência do capitão Bolsonaro na instigação contra quem o questiona, especialmente os jornalistas – por dever de ofício – desonra a memória do Marechal Eurico Gaspar Dutra, o presidente signatário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, ratificada pelo Brasil em 10 de dezembro de 1948.
Artigo 19: “Todo homem tem direito à liberdade de opinião e expressão; esse direito inclui a liberdade de se manufestar sem interferências, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e ideias por quaisquer meios, independentes de fronteiras.”
A nova agressão em Guaratinguetá, amplia a lista de 469 ataques, insultos e ameaças à imprensa perpetradas pelo presidente e seus herdeiros apenas em 2020. Tal pai tal filhos, o mais viperino foi o deputado federal Eduardo Bolsonaro, 208 ataques; seguido pelo patriarca, 103 ataques. O vereador Carlos Bolsonaro atacou 89 vezes e o primogênito, senador Flávio Bolsonaro, em 69 ocasiões. Os número são da ONG @Repórteres Sem Fronteiras, entidade que monitora os abusos contra imprensa em todo o mundo.
A Declaração Universal dos Direitos Humanos me permite afirmar que o Sr. Jair Messias Bolsonaro não é um débil mental comum, ou idiota sem rumo; muito menos um porra louca gratuito. Ele manipula a própria histeria para ocupar espaço nas mídias sociais, estratégia comum aos líderes carismáticos obcecados pelo poder, atormentados pela síndrome de Nero. Propõem o incêndio do circo, ou de Roma, como alternativa para as frustrações e carências das pessoas que se identificam com suas vaidade e fobias. A síndrome de Nero confunde mandar com governar e o autoritarismo com autoridade.
A História ensina que os militares frustrados são os adversários mais perigosos da democracia. Vide o cabo Adolph Hitler, “il capo” Benito Mussolini e outros nacionalistas fanáticos. O nacionalista Jair Bolsonaro pode ser vulgar, mas tem carisma e sabe usá-lo. Seduziu a metade mal amada dos brasileiros, especialmente as mulheres. Aliás, Leila Diniz já dizia:
“Todos os cafajestes que eu conheci na minha vida era uns anjos de pessoas.”
O anjo que nos toca, aliás Messias, não ataca a imprensa atoa. Ele escolheu o inimigo providencial no Brasil semianalfabeto, carente de educação e cultura. A ignorância favorece aos corruptos e oportunistas encastelados na política graças à imunidade que lhe é concedida. Qualquer pessoa pode ser processada e presa se agir como como presidente em relação à pandemia; obstruir o acesso às vacinas, estimular aglomerações, fazer propaganda de fórmulas condenadas pela medicina. Vide a entrega do Ministério da Saúde, em plena pandemia, ao general que enxovalhou a farda em subordinação pública:
“É simples assim. Um manda outro obedece” – Eduardo Pazuello.
Colar a culpa num incompetente disponível é simples mesmo. Simples como esparadrapo. A cloroquina gorou e a panaceia do momento é transformar a máscara em venda para conduzir a boiada através da porteira aberta pela propaganda antecipada para as urnas de 2022. A propósito, quase 100% do rebanho bovino nacional está imunizado contra brucelose e febre aftosa, exigência internacional para a exportação da carne inacessível aos brasileiros; e mais de bois no pasto há 20%. O olho do dono engorda o gado; a fobia do presidente mata pessoas. Após um ano e meio de pandeia, apenas 12% da população foi vacinada até com a segunda dose da vacina contra a Covid-19.
Jair Messias Bolsonaro não dá o braço a torcer. Recusa a “vachina” como exemplo da sua proposta de imunização de rebanho. Mas a teimosia profilática, os ataques de pelanca, os surtos histéricos, chiliques, faniquitos, fricotes, porralouquices, pitis, destemperos, desbundes, ofensas, insultos, vulgaridades, cafajestices, etc. tudo isso tem remédio: democracia. Cada voto é uma vacina!
Nós, os brasileiros paralelos, obedientes à orientação do Presidente da República Federativa do Brasil – “chega de frescura e mimimi” – maioria absoluta às margens plácidas do Ipiranga, tiramos a máscara da pandemia que, por enquanto, matou 508 mil pessoas no “Brasil acima de todos”, aderimos ao golpe em gestação no processo eleitoral através do voto impresso, artifício made in Donald Trump para questionar o eventual resultado negativo nas urnas, e propomos um Estado Motoqueiro, autocrático, cloroquímico, charlatão, garantido pelo “meu exército”, aparato militar/miliciano, instrumento de intimidação política do messias executivo, segundo seus preconceitos, natureza reacionária, negacionismo científico; orientação manipulada nos gabinetes extra oficiais palacianos e púlpitos caça níqueis, redutos dos gestores e intesmediários do golpe que se anuncia pela desqualificação das urnas eletrônicas, da compra de apoio no Congresso através distribuição de verbas escandalosas para emendas parlamentares, da corrupção política, evidentes na elaboração e apoio à PEC da impunidade em trâmite na Câmara dos Deputados e na incompetência do ministério mais medíocre da História Republicana Brasileira. Nesse contexto, está aberta a votação para uma Carta Magna adequada à realidade nacional.
TÍTULO I – DOS PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS
Art. 1° – A República Motoqueira Bolsonariana se aglomera pela união precária dos estados que apoiam o capitão presidente, os municípios que bajulam o presidente capitão, o Distrito Federal e a hierarquia às avessas do capitão superior aos generais no exército do presidente, constituindo-se num Estado armamentista e contra o meio ambiente, sob os seguintes fundamentos:
I – Soberania para insultar a Argentina, a União Europeia, a Índia, a China e o Piauí. Baixar as calças para o ex-presidente americano cúmplice da invasão do Congresso e sabotador dos resultados eleitorais.
II – Cidadania seletiva. Para os farsantes religiosos e os puxa-saco, tudo. Insultos, deboche e ameaças para o resto, especialmente os usuários de máscaras, os mariquinhas e os jacarés.
III – Legalização da tortura e resgate do saudável regime ditatorial. Fechar o Supremo Tribunal Federal com um cabo, um soldado.
V – Preservar a ignorância, combater a ciência e a imprensa. Vacina é o cacete! Todo vacinado é gay.
VI – Abrir a porteira para a boiada, acabar com essa palhaçada de meio-ambiente e legitimar as rachadinhas. Promover o oportunismo políticos, a desestruturação institucional e amordaçar a porcaria da imprensa.
§ Único: Todo o poder emana do gabinete paralelo, que manipula o Centrão, barganhado vantagens e privilégios para o legislativo e o desvirtuamento do judiciário. Todos os cidadãos são desiguais, conforme os caprichos de quem manda e a covardia de quem obedece.
Em votação: Os que concordam permaneçam como se encontram.
Aprovado!
P.S. Quem considera esta proposta ofensiva à pátria amada, favor cotejar as condições objetivas do país com os preceitos e dispositivos da Constituição Cidadã de 1988. Em especial o TÍTULO II, DOS DIREITOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS… e sustente sua família com um salário mínimo.
Natal 21 de junho, primeiro dia do longo e tenebroso inverno de 2021
O Brasil existe às margens plácidas da História desde 1° de maio de 1500, quando Pêro Vaz de Caminha, escrivão da frota de Pedro Álvarez Cabral, em viagem para as Índias, assinou a carta para o rei de Portugal, Dom Manuel I, informando-o sobre “achamento” por acaso da “Ilha de Santa Cruz”. O heroico brado do Brasil ser uma ilha inaugurou as controvérsias a partir dos seus nomes: Pindorama, Terra dos Papagaios, Terra de Vera Cruz, gigante adormecido, florão da América, impávido colosso, casa da mãe Joana, pais do futebol, país do carnaval etc. e tal.
Poucos festejam o registro civil da pátria amada, idolatrada salve–salve, salve-se quem puder. A maioria celebra a data como Dia Internacional do Trabalhador, em reverência ao sábado 1° de maio de 1886, quando a polícia de Chicago, Illinois, EUA, matou sete e feriu uns 100 preguiçosos que exigiam a redução de 13 para oito horas no expediente da McCormick Harvesting Machines. Dois anos depois, a princesa regente Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bourbon-Duas Sicílias e Bragança, a Redentora, assinou em 13 de maio de 1888 a lei nº 3353, com artigos mais concisos do que o seu nome:
Art. 1.º: É declarada extinta desde a data desta lei a escravidão no Brasil.
Art. 2.º: Revogam-se as disposições em contrário.
A famosa Lei Áurea é celebrada como um sonho intenso, raio vívido de amor que à terra desce, embora o Brasil tenha sido o último a abolir escravidão entre todos os países ocidente. O Império não indenizou os escravos e muito menos aos seus donos, os quais articularam a proclamação da primeira das seis repúblicas Brasileiras um ano e meio depois. O vínculo nacional mais estridente com o dia mundial do batente ocorreu na Terceira República (o Estado Novo), pela instituição da Consolidação das Leis do Trabalho, CLT, decretada em 1º de maio de 1943 pelo do caudilho gaúcho Getúlio Dorneles Vargas: “Trabalhadores do Brasil…” Quantos? Os números são duvidosos, todavia não admitem mais serem torturados como no milagre econômico da Quinta República, vulga ditadura de 64, regime para o qual esse tal de 1° de maio era coisa de comunista.
A abordagem predominante sobre o emprego no país desafia o nosso peito a própria morte, de fome, drama evidentes em cada esquina. Trata-se dos siviristas, os que se viram; geração flanelinha, de biscateiros, malabaristas existenciais dispostos a qualquer trampo pra descolar o caimbá e comprar o manguti dos curumim. Afinal, quanto são? Os chutes variam entre 40 e 60 milhões de “invisíveis”, dependentes do auxílio emergencial, desempregados que batem as calçadas distribuindo currículos. O governo obstruiu o censo nacional obrigatório de 2020 e sabotou sua realização em 2021 para ocultar a realidade social da nova classe rotulada oficialmente como “invisível”.
A falência social acentuada pela pandemia precisa de ser quantificada para a formulação de estratégias administrativas, porém a supressão do censo outra vez evidencia a camuflagem eternamente em berço esplêndido, às vésperas do ano eleitoral. A prova da sabotagem política do recenseamento foi a dotação orçamentária de R$ 48 bilhões para as emendas parlamentares dos 513 deputados e 81 senadores, todos eles candidatos à continuidade dos seus mandatos no segundo congresso mais caro do mundo. Só no Brasil… diria Macunaíma, o protótipo cultural do caráter deitado eternamente em berço esplêndido. Ai, que preguiça!
escolaeducação.com.br -imagem anônima
Voltando ao registro civil do gigante pela própria natureza, a maioria ouviu dizer que o nome do nosso belo, impávido e forte colosso se deve ao Pau Brasil, Caesalpinia echinata, a primeira riqueza saqueada. A lenha cor de brasa, tão abundante que identificou a espécie e a terra, se extingue no que resta da Mata Atlântica. Os maiores predadores foram os próprios nativos, a troco de bugigangas e machados para abater as árvores. Outra tese para o batismo se refere à Ilha Brasil, suposta parte da Atlântida.
A fonte primária desta versão é o grego Platão (328-348 A.C) discípulo de Sócrates, mestre de Aristóteles, fundadores da filosofia ocidental. No diálogo Timaeus, Platão comenta a tradução feita por Solon de registros egípcios arcaicos sobre a ilha Brasil. A propósito, Solon, um dos sete sábios helênicos, concebeu a democracia, introduzindo o censo como ferramenta administrativa na República de Atenas. Vinte e seis séculos depois, os filhos deste solo, ó mãe gentil, desviaram a verba do censo para as negociatas eleitorais dos cara de pau brasília. Tamanha sacanagem política – que diga o verde louro dessa flâmula – se repete impunemente por excesso de oportunismo, falta de escrúpulos e de educação, que é a base da consciência. Embora Pero Vaz de caminha tenha datado a sua carta uma semana após o “achamento,” o primeiro panfleto só seria iluminado ao sol do novo mundo 308 anos depois. Antes da corte portuguesa vir se refugiar nessa terra mais garrida, cujos risonhos e lindo campos tem mais flores, era proibido imprimir qualquer coisa ao som do mar e à luz do céu profundo.
Carta Caminha, arquivada na Torre do Tombo, em Lisboa
A julgar pela caligrafia de Pero Vaz de Caminha, nós entenderíamos muito mal a algaravia dos lusitanos recém chegados, tal como poucos lêem aquele manuscrito. Eu não consigo, mas sempre que o Brasil faz aniversário a imagem do cruzeiro resplandece e eu me lembro da Dona Edinir, nossa professora de Português no Colégio Paes Leme, em São Paulo, de onde os Jesuítas do padre José de Anchieta, fundadores da cidade, foram banidos por insistirem em educar o gentio. Dona Edinir era canhota e se afastava para a direita das palavras quando escrevia no quadro negro, lendo cada sílaba com sua voz de giz: “Sa-ba-ti-na. Di-ta-do. Va-le pon-to, pa-ra a mé-di-a men-sal.” O assunto do ditado era a famosa carta. Ela disse que que os termos complicados serviriam para mostrar como a língua evoluiu, disse para capricharmos na letra porque depois trocaríamos os cadernos para correção mútua, editou:
“Senhor – vírgula (É pra escrever senhor vírgula, professora?) É pra te dar zero se você continuar com gracinhas. Senhor – vírgula – Posto que o capitão-mor desta vossa frota e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a nova do achamento desta vossa terra nova – vírgula – que ora nesta navegação se achou-vírgula – não deixarei também de dar disso minha conta a Vossa Alteza – vírgula – assim como eu melhor puder – vírgula – ainda que para o bem contar e falar o saiba pior que todos fazer – ponto – Mas tome Vossa Alteza minha ignorância por boa vontade – vírgula – a qual – vírgula – bem certo – vírgula – creia que por afremosentar…”
Descrição original do dia 22 de abril de 1500: “…Pola nhãa topamos aves aque chamã fura buchos e neeste dia aoras de bespera ouvemos vjsta de tera .s. premeiramente dhuu[m] gramde monte muy alto. rredondo e doutras serras mais baixas ao sul dele e de trra chaã com grandes arvoredos. ao qual monte alto ocapitam pos nome omonte pascoal E aatera atera davera cruz… omde todos lancamos amcoras em dirto daboca dhuu[m] rrio e chegariamos aesta amcorajem aas x oras pouco mais ou menos e daly oovemos vista dhomee[n]s q[ue] andavam pela praya… pardos todos nuus sem nhuu[m]a cousa que lhes cobrisse suas vergonhas…”
O Cabo de Santo Agostinho em detalhe no mapa de Juan de la Cosa, o cartógrafo e piloto da nau Sta. María, outro nauta da expedição de Colombo
Atualizando o português arcaico, na quarta-feira 22 de abril de 1500, o topo redondo de um monte surgiu a oeste do antigo “mar tenebroso.” Os navegantes costearam a suposta ilha e, no dia seguinte, meia dúzia deles desembarcaram numa praia povoada por gente nua, sem nenhuma “vergonha das suas partes”, inocentes como Adão e Eva no paraíso, antes do fruto proibido. Só podia ser na Bahia, diria Dorival Caymmi. Ninguém imaginou ter chegado a um continente, o Cruzeiro do Sul sugeriu o nome do lugar e Pêro Vaz de Caminha mandou a carta para el-rei Don Manuel I, o Venturoso, sem mencionar – por desconhecimento autêntico – que Vicente Yánez Pinzon chegara três meses antes ao Cabo de Santo Agostinho, 35 Km ao Sul de Recife, Pernambuco.
Pinzón sabia com certeza que descobria um continente, vide o mata de Juan de la Cosa, embarcado na sua expedição. Cabral estava errado, sua ilha tinha milhões de quilômetros quadrados, ao som do mar e à luz do céu profundo.A regra na época era a posse de quem chegasse primeiro, mas o lote estava dentro do limite português sacramentado pelo Tratado de Tordesilha, 370 léguas a Oeste da Ilha de Santo Antão, no Cabo Verde. Fernão de Aragão, famoso pela ganância, não questionou o novo domínio porque sua filha com Isabel de Castela, Isabel de Aragão, era a rainha do português Manuel, o Venturoso. Teoricamente a herança agregaria a nova conquista à Espanha.
Daí que até hoje os portugueses reivindicam a descoberta do gigante pela própria natureza, apresentando a escritura de posse lavrada em 25 páginas por Pero Vaz de Caminha, o primeiro tabelião do futuro paraíso dos cartórios. A caligrafia arcaica é tão diferente da atual quanto a paisagem primitiva contrasta com o cenário moderno. E a estima dos filhos deste solo gentil com os conquistadores se avalia pela indiferença no seu aniversário. No dia 22 de abril, os líderes das 40 nações mais importantes se reuniram na Cúpula Mundial Sobre o Clima, inclusive o presidente brasileiro, celebrando o Dia da Terra. Jair Messias Bolsonaro estava acuado pela reação mundial à sua política do boi verde, a que deixa boiada passar enquanto o fogo afina o Mato Grasso, e não mencionou a aventura de Cabral nem a carta de Caminha.
Dona Edinir, o que é inzoneiro? Eu nunca fui bom aluno e ela té me deu o livro Pau Brasil, do Oswald de Andrade, um dos protagonistas da Semana de Arte Moderna (11 a 18 de janeiro) de 1922, o grito primordial do Movimento Modernista, raiz do Manifesto Antropofágico, proclamado Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, a pintora do Abaporu. A busca da nossa identidade, da expressão autêntica e livre da catequese borocochô, o ranço, domínio colonial do pensamento, foi inspirada pela espontaneidade dos “homee[n]s q[ue] andavam pela praya… homee[n]s pardos todos nuus sem nhuu[m]a cousa que lhes cobrisse suas vergonhas…” Eram todos Abaporu, em Tupi, aba é homem, poru gente e ú é comer. Abaporu: homem que come gente.
Capa do manifesto Pau Brasil. Fair copyryght – domíno público
Cunhambebe, o senhor da matas de Angra dos Rei, apontou um índio extraviado para o náufrago alemão Hans Staden e disse: “Olhe, lá vem a nossa comida pulando.” Concordo que a antropofagia do Brasil pré cabralino era monstruosa, mas, na mesma época os mui civilizados cristão assavam as pessoas vivas nas fogueiras da inquisição, após torturas infernais, em nome da fé.Só agora eu percebo o quanto a Dona Edinir confiou na minha capacidade de entender o esforço de Oswald de Andrade para aproximar a literatura da língua falada, da poesia livre, o pensamento brasileiro não catequizado, puro, como os Pataxó pelados de Porto Seguro. E a porcaria dessa lágrima pingou no teclado porque a primeira parte de Pau Brasil, um livro magro, de capa dura, se refere à carta de Pêro Vaz de Caminha.Ela era uma boa professora e isso me comove.
Oscar Pereira da Silva (1867-1939) – Fair copyright
Após dez dias de “refrescos” a frota partiu rumo às Índias deixando aqui dois criminosos para aprenderem a língua, os costumes e prospectar as riquezas. O objetivo era um levantamento para o a providência imediata: a catequese dos nativos para facilitar o saque desta terra mais garrida. Um dos degredados se chamava Afonso Ribeiro. O nome do outro não podia ser mais premonitório: João de Thomar. O Afonso Ribeiro era acusado por “culpas de morte.” Alguns historiadores alegam sua inocência. Se isto foi verídico, estava inaugurada a “justiça” no futuro Brasil. O outro, João de Thomar, foi tão bem sucedido que os seus descendentes evoluíram como políticos, farsantes religiosos, bajuladores palacianos e outros patifes oficiais, especialistas no thomar-láh-dar-cáh. O agá na gíria do esculacho é sinônimo de trambique, mutreta e outras especiarias legislativas, judiciárias e executivas… municipais, estaduais e federais. Ai, meus sais! Chamem os fuzileiros navais e afundem os agáhs.
Os herdeiros mais prósperos dos nossos contraventores primordiais se encastelam nos palácios e gabinetes do Distrito Federal, Brasília, BSB, BR. A última notícia de Afonso Ribeiro e João de Thomar foi registrada por Valentim da Moravia, um impressor germânico contemporâneo da “descoberta”, com oficina em Lisboa. Consta que eles teriam sido resgatados pela expedição de Duarte Coelho, voltando ao reino para receber benesses pela espionagem. A ilha de Vera Cruz mudou um pouco nesses cinco séculos. Suas matas cantadas em prosa e verso viram cinzas, com um governo incendiário ajoelhado no pescoço dos jacarandás. Carta por carta, peço licença a Pêro Vaz de Caminha e escrevo um bilhete sobre algumas consequências da memorável passagem acidental das 13 naus da frota de Cabral pela Bahia, no tempo em que jacarandá se chamava ibirapitanga.
“Caro Dom Manuel, saudações venturtosas neste 1° de maio de 2021.
Vossa majestade gostará de saber que o Todo Poderoso tornou-se súdito do vosso reino, amém. Todos dizem ue Deus é brasileiro, inclusive o Papa. Inventamos a bola o feijão, a farofa, a tapica, o cuscuz, a rede, o gol de placa, o samba, a mulata, o avião, a preguiça, a bunda, o fio dental, o tamborim, o saudável hábito de coçar o saco, o estimulante esporte da paquera, o bolo, o rolo, o mimimi, a caipirinha, a gripezinha, o leite condensado, a puta que o pariu e todos os apelidos do mundo. Patenteamos a mentira, o salário mínimo, o colarinho branco, a inflação, o bujão de gás, o boi verde da cara preta, suja de tisna das queimadas, a seca no pantanal, o auxílio emergencial, a bolsa família, a prestação da casa imprópria, a falta de vergonha, a jabuticaba, os jabutis legislativos, a abobrinha, a CPI, o INPS, o inquérito para não dar em nada, os recursos dos recursos dos recursos da impunidade, o fino da burocracia, os assessores parlamentares, as rachadinhas e os melhores puxa-saco do mundo. Aperfeiçoamos o nepotismo e a corrupção.
A carta de Caminha sobreviverá séculos, ao contrário da minha, que provavelmente será deletada em seguida. Outra diferença fundamental é a que a do escrivão da frota de Cabral começa bajulando el-rei Dom Manuel e termina pedindo-lhe favores… “que por me fazer simgular merçee mã de vijr dajlha de sam thomee jorge dosoiro meu jenrro. o que dela rreceberey em mujta merçee. / beijo as maãos de vosa alteza. /deste porto seguro da vosa jlha de vera cruz oje sesta feira primº dia demayo de 1500.”
Tradução: neste cargo que levo, como em outra qualquer cousa que de vosso serviço for, Vossa Alteza há-de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de S. Tomé Jorge d’Osoiro, meu genro, o que d’Ela receberei em muita mercê. Beijo as mãos de Vossa Alteza. Deste Porto Seguro, da vossa ilha da Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de Maio de 1500. Pêro Vaz de Caminha. Ele bajula e eu quero apenas que você compartilhe esta bula do remédio contra a burrice oficial. Afinal, dos filhos deste solo és mãe gentil, pátria amada Brasil.
P.S. A quem interessa possa: as citações em negrito são do Hino Nacional Brasileiro, letra de Joaquim Osório Duque Estrada, música de Francisco Manoel da Silva.
Dor: 390 797 mortes enlutam aos órfãos, irmãos, parentes, amigos, conhecidos, colegas de trabalho, vizinhos e até aos inimigos. A multidão das vítimas aumenta neste mesmo instante. Mas, cedo ou tarde, os responsáveis e os indiferentes a tanto sofrimento serão julgados. Porém o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, confia na impunidade pelas mortes por Covid no Brasil:
“Quem errou, se errou, cometeu dolos ou falta de boa gestão, será responsabilizado no tempo adequado. Eu encaro com naturalidade e, no tempo adequado e de forma responsável, analisaremos esses pedidos” – Agência Câmara, 26.04.2021
A imunidade constitucional dos parlamentares os isenta de julgamento por covardias como o rateio de R$ 48 bilhões em emendas eleitoreiras, quando a verba emasculada do Orçamento para Censo de 2021 impede que se identifiquem as causas dos 400 mil mortos pela “gripezinha” que devasta o país. A gestão pública precisa de informações atuais para evitar absurdos como submeter 40 milhões de pessoas à miséria, oferecendo esmolas de 250 pratas para uma família, enquanto distribui bilhões entre parasitas às vésperas do ano eleitoral.
Isso é crime de lesa pátria, e, quando se trata de 400 mil mortos, a blindagem de quem comprou a eleição do Sr. Lira para presidir a Câmara, implica em cumplicidade na obstrução da justiça. A insinuação da dúvida … “Quem errou, se errou, cometeu dolos ou falta de boa gestão” … comprova intenção de tumultuar ainda mais o ambiente social para pulverizar responsabilidades políticas. O presidente da Câmara e os aliados do governo no Congresso sabotam a instalação da CPI da Covid, mas o “tempo adequado” de punir os responsáveis e seus cúmplices é agora, ou todos seremos os responsáveis por crises mais dolorosas.
Girón foi a praia do desembarque dos cubanos treinados pela CIA – bahiadecochinos.weebly.com – Fair copyright
Viva Cuba Libre! Os barbudos da Sierra Maestra tomaram Havana na quinta-feira dia1º de janeiro de 1959, após quatro anos e meio de revolução, com armas, dinheiro, o entusiasmo pan-americano e a cumplicidade ambígua do governo dos Estados Unidos. O presidente Dwight “Ike” Eisenhower havia retirado o país da Guerra da Coreia e delegou ao seu vice, Richard Nixon, coordenar o jogo duplo entre a guerrilha de Fidel Castro e a repressão do general Fulgêncio Batista, o capataz do interesses americanos.
Após “El triunfo de la Revoluciós Libertadora,”os fuzilamentos no paredón, a reforma agrária, as encampações da indústria açucareira, da rede bancária, das concessões públicas e dos cassinos escandalizaram os donos virtuais da ilha. Os Estados Unidos usavam Cuba como seu quintal desde 1898, quando uma guerra incitada pela imprensa expulsou a Espanha do Caribe e América Central, estabelecendo o domínio ianque sobre as Repúblicas de Bananas. A invasão da Bahia dos Porcos ocorreu em plena Guerra Fria, clima que merece um aquecimento histórico antes de entrarmos no tiroteio da Playa Girón.
Harry S. Truman metera o país na Guerra da Coreia após o rendição japonesa na II Guerra Mundial. Ele estava certo de liquidar rápido o assunto com “os amarelos” porque tinha mais bombas atômicas na gaveta além das que havia mandado para arrasar Hiroshima e Nagazaki. Mas Mr. Truman subestimou o adversário, colidiu com o general Douglas MacArthur, o comandante supremo das tropas aliadas na Coreia, e o resumo está gravado no granito do monumento aos veteranos daquela guerra, no Centro de Washington: 54 246 americanos mortos, 103 824, feridos, 8 177 desaparecidos. E a tirania comunista norte coreana, álibi de Truman para ir à guerra, se perpetua na ditadura do “amado líder” Kim-Jong-un.
P’anmunjom: a assinatura parcial da cessação das hostilidades que continua subjacentes entre as Coreias. Foto do Departamento de Defesa USA, documento de domínio público
O general Eisenhower, comandante das Forças Aliadas na Europa durante a II Mundial, se elegeu em 1952 e quando resolveu cumprir sua promessa de campanha, o presidente da Coréia do Sul, Syngman Rhee, não reconheceu o armistício assinado 27 de julho de 1953, em P’anmunjom, e a China, aliada da Coreia Norte, se retirou do acordo. Os boicotes chinês e sul coreano prolongam tecnicamente aquele ensaio macabro para a guerra do Vietnam. E o armistício capenga de P’anmunjom se encaixa à lambança de John Kennedy na Bahia dos Porcos porque a segunda-feira 27 na Coreia correspondeu ao domingo 26 de julho em Santiago, dia do massacre do Regimento Moncada, o primeiro ato da Revolução Cubana. O elo entre os dois episódios foi apenas a data… até o fracasso da contrarrevolução em Cuba empurrar a América para a guerra no Vietnam.
O sacrifício inútil na Coreia congelou ainda mais a Guerra Fria, compelindo o governo Eisenhower/Nixon a mostrar o comprometimento anticomunista no próprio terreiro. John Foster Dulles, o secretário de Estado do governo Eisenhower, e seu irmão, Allen Welsh Dules, diretor da CIA, eram sócios do escritório Sullivan and Cromwell, a cabeça jurídica da United Fruit Company. Além disso, integravam o Conselho de Administração do Pulpo (o Polvo), como o povo apelidou as plantações de bananas, cana e café; as usinas açucareiras, as ferrovias, as linhas telegráficas, os hotéis, os hospitais, os portos; as concessões nos fornecimentos de eletricidade e a empresa de navegação White Fleet, a Frota Branca.
A United Fruit era mais rica do que os países que explorava juntos. A ameaça da reforma agrária na Guatemala pelo coronel Arbens Guzmán veio a calhar para os interesses dos irmãos Dulles. Eles poderiam descartar o coronel Gusmán pelos métodos convencionais: fraude eleitoral, boicote econômico, corrupção e suborno, mas a oportunidade era excelente para empurrar o desastre coreano sob aquele lindo tapete do Gabinete Oval. A rádio clandestina Voz da Liberdade passou a transmitir de Honduras que o coronel Guzmán implantava uma ditadura comunista e a CIA treinou na Nicarágua os 400 mercenários da Operação PBSUCCESS, vanguarda do “Exército de Liberação da Guatemala”.
Protesto em Manágua, Nicarágua, 1° de Maio/1980 Efeito do golpe de 1954 – Foto do autor. Original publicado no meu livro “A revolução das Bananas”
O símbolo dos invasores recrutados pela Agency era uma cruz apunhalada, e o punhal foi cravado no domingo 28 de junho de 1954. Arbenz Guzmán se rendeu rápido ao coronel Carlos Castillo Armas, o testa de ferro da CIA. Por acaso, aquele golpe revolucionou um andarilho argentino em trânsito pela Guatemala. Ernesto Che Guevara era comunista como um tango e se envolveu na resistência por pura indignação. Foi perseguido e fugiu para o México, onde juntou-se aos refugiados cubanos que treinavam para derrubar o general Batista sob a liderança de Fidel Castro. E nunca outro plano tão mal ajambrado deu tão certo quanto a Revolução Cubana. Quiero dizer, certo para os irmãos Raúl e Fidel Castro, .que se locupletaram na maior farsa política do favelão pan-americano.
O sucesso do golpe guatemalteco intimidou todas as pretensões revolucionárias nas américas e os irmãos Dulles projetaram a United Fruit como espectro do imperialismo ianque.Antes dos cubanos chutarem o pau da barraca a maioria das revoltas latino-americanas eram caricaturas tropicais da Revolução Mexicana. Se um camponês atirasse de olhos vendados tinha mais de chances de balear um ladrão do que qualquer patriota honesto.
Esperneie quem quiser, mas a definição dos países da América Central e Caribe como Repúblicas de Bananas colou. O deboche foi concebido por O. Henry em Cabbages and Kings, uma sátira sobre a guerra entre Guatemala e Honduras instigada pela United Fruit Company e a Cuyamel Fruit para expandirem os seus domínios da região. O. Henry era o pseudônimo do escritor William Sidney Potter que escreveu o conto Repolhos e Reis enquanto se escondia em Honduras após ter dado um desfalque no First National Bank, no Texas.
Quando a revolução cubana virou o fio para a esquerda – paredón, reformas, independência, autonomia ideológica e outro insultos – os manda chuva de Washington reduziram a compra de açúcar e o fornecimento de combustíveis. A União Soviética aproveitou a brecha no gelo da guerra aberta em Cuba pelos Estados Unidos, enviando petróleo a preço de banana, em troca de açúcar a peso de ouro. A Shell, a Texaco e a Esso se recusaram a processar o óleo comunista, aí Revolução nacionalizou as refinarias
O vice Richard Nixon presidia o Conselho Nacional de Segurança e ativou a Operação 40, que consistiu em convocar os magnatas prejudicados pelas expropriações e a reforma agrária para financiar a derrubada do novo regime. George Bush (pai) se destacava entre eles e tinha credenciais excelentes. Era membro da seita Skull and Bones (Crâneo e Ossos) fundada em 1832 na Universidade de Yale para garantir a supremacia WASP – White, Anglo-Saxon and Protestant – no topo do poder político.
Bush pai (no círculo) era proeminente na seita macabra. 322 é n° hermético da Skull and Bones
Skull and Bones, também chamada de 322 e Irmandade da Morte, é associada aos Iluminati, a seita que propõe um governo global administrado por seus integrantes bilionários. O 322 se refere ao ano da morte do filósofo Demóstenes, quando a democracia ateniense foi convertida numa plutocracia, sistema cujo poder emana da elite econômica no controle político/social. A Skull and Bonnes venera como relíquia o crânio do chefe apache Geronimo, roubado da tumba no Fort Sill por três sectários, entre eles Prescott Bush, o avô que introduziu o ex-presidente George Bush (pai) na Irmandade da Morte.
Os descendentes de Gerônimo tentam em vão recuperar a caveira ancestral, alegando a profanação dos restos do Apache que simboliza a resistência/extermínio dos nativos americanos e fortes boatos quanto ao envolvimento da Skull and Bonnes na sabotagem do Le Coubre, resultando em 75 mortos e 200 feridos. O navio carregado de armas vindas da Bélgica explodiu no porto de Havana na sexta-feira 4 de março de 1960, episódio idêntico à explosão do cruzador U.S.S Maine, em 15 de fevereiro de 1898, justificando a intromissão ianque na revolta de José Martí pela Independência Cubana. O resultado foram as tomadas de Cuba, de Porto Rico, das Filipinas e de Guam na guerra contra a Espanha, instigada, na verdade exigida, pela imprensa dos Estados Unidos.
El Che, foto de Alberto Korda – Museu Nacional de Havana-domínio público
A foto da sucata dá a impressão do Le Coubre ter sido bombardeado em Pearl Harbor, mas o ícone que sobrevive é o “Guerrilhero Heroico” fotografado por Albert Korda no funeral das vítimas, no dia seguinte à sabotagem. O olhar sombrio, além do horizonte, desvia a atenção da cicatriz na face esquerda, lembrança de uma bala no combate da Baía dos Porcos. E Fidel Castro apontava para o norte quando rugiu: “Vocês não nos submeterão pela guerra nem pela fome.” O governo americano negou qualquer envolvimento, mas choveu panfletos sobre a ilha, lançados por aviões vindos da Flórida.
John Kennedy derrotou o vice-presidente Richard Nixon nas eleições de 1960 e assumiu a maior reponsabilidade do mundo na sexta-feira 20 de janeiro de 1961. A política double-face do governo Eisenhower na Revolução Cubana fora executada por Allen Welsh Dulles, o primeiro diretor civil da Central Intelligence Agency, a popular CIA, justamente na fase aguda da Guerra Fria. A CIA fornecera armas para os rebeldes, fingindo ignorar a rede clandestina das operações externas e coleta de fundos baseada em Miami. Dulles ainda desfrutava o prestígio do golpe na Guatemala contra o governo nacionalista de Jacobo Arbens Guzamán e Kennedy herdou do presidente Eisenhower a Operação Mongoose, um esquema para matar Castro como pré requisito na retomada de Cuba.
A CIA havia montado a Operação Pluto para recrutar exilados cubano, treiná-los, invadir Cuba e juntar-se à guerrilha na Serra de Scambray, quando… dez, nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três, dois, um. Ignição! O cosmos ficou vermelho e a América empalideceu. Os americanos, eu e o resto dos deslumbrados desse planeta acreditávamos na supremacia americana, e, de repente, Yuri Alekseyevich Gagarin subiu como um rojão para informar à humanidade que “a Terra é azul”. Um russo no cosmos e milhares deles em Cuba agravaram a paranoia da Guerra Fria. Kennedy reagiu à disparada soviética na corrida espacial anunciando o programa “Nova Fronteira”, pelo qual prometeu a Lua aos americanos no prazo de um década. Mas os contribuintes exigiam algo mais concreto do que uma promessa lunática, e a indústria de abrigos atômicos familiares prosperou. Como se isso não bastasse, o desafio cubano à maior potência encantava meio mundo e Kennedy tinha que recuperar Cuba antes da sua primeira reunião com Nikita Khrushchev, agendada para julho, em Viena.
A trama era camuflar a autoria da invasão até que um pedido dos contra revolucionários cubanos justificasse a intervenção dos Estados Unidos, para derrubar Castro restaurar a democracia com carimbo de legitimidade. Daí a ausência de americanos entre os invasores da Operação Zapata, codinome substituto da Operação Pluto, uma homenagem à Zapata Oil, empresa texana que forneceu o apoio logístico devido aos seus interesses prejudicados pela nacionalização das refinarias em Cuba. George Bush (pai) fundara a Zapata Oil em 1953 com quatro sócios, entre eles Thomas J. Devine, um especialista em financiamentos das operações clandestinas da CIA.
Bush desmembrou a empresa e em 1959, criando a Zapata Off-Shore, cujas plataforma de prospecção no Golfo do México e Caribe facilitavam as transferências de armas e suprimentos para os grupos operacionais da CIA na região. A privatização do desembarque na Baía dos Porcos deu um tremendo prejuízo a George Bush pai e ele seria recompensado duplamente, com sua nomeação para dirigir a CIA e a futura eleição presidencial do filho homônimo, também membro da Skull and Bonnes. John Kennedy deu continuidade automática à Operação Zapata e os cubanos treinados pela CIA partiram de Puerto Cabezas, Nicarágua, no dia seguinte à façanha de Yuri Gagarin.
O treinamento da Brigada 2506 na Nicarágua – foto anônima
A numeração dos voluntários havia começado por 2500, mas um morreu e o grupo foi batizado em sua homenagem como Brigada 2506. O ditador Nicaraguense Luis Somoza foi se despedir e encomendou ao comandante Pepe San Roman um tufo da barba de Castro. Espiões e boatos enxameavam entre Miami, Washington, Manágua, Moscou e Havana. A KGB monitorou a invasão, codinome Dia J, restava saber a data e lugar do desembarque.
Os B-25 invasores foram derrubados e a derrota da Brigada 2506 foi irremediável
A primeira onda surgiu em vôo rasante na madrugada do sábado 15 de abril de 1961. Meia dúzia de bombardeiros B-26, tripulados por desertores, danificaram sucatas de aviões expostas como iscas. Sete jatos Sea-Furye T-33 havia sido ocultos, mas os pilotos fiéis ao regime não decolaram. Na segunda-feira, 17 de abril, o casal Kennedy oferecia um banquete ao corpo diplomático, justo na hora da lambança em Cuba.
O presidente, seu irmão Bob, ministro de Justiça, e McGeorge Bundy, do Conselho de Segurança Nacional, haviam detalhado a invasão com Allen Dulles. O porta-aviões U.S.S Essex capitaneava a força-tarefa posicionada ao largo de Cuba, e o plano incluía o apoio aéreo americano. Mas a falta de resistência aos B-26 induziu à suposição de aniquilamento da defesa aérea cubana. Kennedy queria manter a pose democrática e vetou o apoio aéreo na última hora.
Kennedy consolou os cubanos abandonados na Baía dos Porcos, já com a cabeça no Vietnam, para mostrar aos russos que era durão – foto anônima – Fair Copyrighty
Os três dias de luta terminaram com 254 invasores mortos na Praia Girón e 1 146 presos. Guevara levou um tiro no rosto e a baixa mais dramática foi a de Humberto Sorí Marín, ex-guerrilheiro e ministro da Agricultura, autor da Lei da Reforma Agrária. Sorí Marín discordara da guinada comunista do regime, fugiu e voltou para organizar a contrarrevolução. Foi ferido na bunda e preso. Fidel Castro o interrogou no hospital e prometeu aos familiares um julgamento justo. Mas o ex-companheiro, comandante na Sierra Maestra, foi fuzilado depois dos curativos. O sucesso sideral de Gagárin precipitara o ataque, e os pilotos leais à revolução explodiram o Rio Escondido e o Houston. Outros dois navios avariados buscaram a proteção da força-tarefa americana e os expedicionários da Brigada 2 506 se ferraram na praia, sem pai, sem mãe, sem o Tio Sam nem a tia CIA. Nenhum ianque pisou na ilha. Todos eram cubanos, mas Fidel Castro cantou vitória militar sobre “o império”. Apesar dos desmentidos de Washington, a participação americana era inegável. As bombas explodiram no noticiário,ecoaram na ONU, e Kennedy ditou sua melhor manchete: “As vitórias têm muitos pais. As derrotas são órfãs”.
Pesquisas sobre o episódio registraram o recorde de 83% de apoio ao governo Kennedy, índice oposto à reprovação da comunidade internacional. As evidências sobre a autoria do ataque eram absolutas, e Kennedy demitiu Allen W. Dulles. Vendo a foto do ex-todo poderoso diretor a CIA, ninguém diz que aquele velhote com cara de vovozinho das histórias de carochinha mandara envenenar o milk-shake habitual de Fidel Castro na Sorveteria Copelia, em Havana. O sistema engavetou as responsabilidades sobre a Operação Mongoose e o Relatório Church garante: “Apesar do direito constitucional e das intimações judiciárias, o comitê investigador não teve acesso nem pode analisar por seus próprios meios os arquivos das diversas agências. Tanto a CIA quanto o FBI, NSA, INR, DIA ou a NSC filtraram os documentos e as evidências”. A censura aos membros do Congresso acobertou o poder subterrâneo da “comunidade de informação” sob a tarja de “privilégio executivo”. Oficialmente, o Dia-J não existiu. A segunda-feira 17 de abril de 1961 foi mais comentada em Washington pelo baile de gala na Casa Branca. Jacqueline Kennedy abalou o corpo diplomático num longo tipo funil, de tafetá cor de rosa, assinado por Oleg Cassini. As longas luvas brancas combinavam com brincos de pérola, em forma gotas. Jackie sabia ser snob. Gastou uma fortuna federal na reforma da Avenida Pennsylvania, 1600, endereço ao qual se referia como “aquela casa de colunas”. Os registros da festa mostram John Kennedy alheio ao drama da Baía dos Porcos como se Cuba fosse um chiqueiro em outro planeta. O governo fingiu que a arenga fora entre cubanos e os assessores caprichavam na maquiagem. O sorriso sereno de Jackie, as fotos do pequeno John-John sob a escrivaninha do gabinete oval, o flagrante do papai presidente levando a suave Caroline para a escola comoviam a maioria silenciosa.
Os invasores abandonado nas praia pela suspensão do apoio prometido. Ao fundo a silhueta em chamas do Zapata em chamas. Foto coldwarproject.files.wordpress.com
Outras familiaridades passaram em branco devido à insignificância (na época) de personagens agora notórios. Os invasores chegaram à Baía dos Porcos nos cargueiros Rio Escondido, Houston, Blagar, Zapata e Barbara, da Zapata Off-Shore Company e da Zapata Oil Corporation, sediadas em Houston, Texas. O sócio principal de ambas tratava-se do futuro diretor da CIA e presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, casado com Barbara Pierce Bush. Ninguém tem nada a ver com o nome da patroa na proa do navio do maridão. Mas se a empresa dele disponibiliza sua frota para um golpe de estado, isso autoriza qualquer cucaracho a denunciar a privatização de um golpe do Governo dos Estados Unidos contra um regime latino-americano. Duas semanas depois, no Dia Trabalho, a segunda-feira 1º de maio de 1961, Fidel Castro berrou na Praça da Revolução:
“Eu sou e hei de ser marxista-leninista até o dia da minha morte”.
Os cubanos caíram na real e o caudilhismo fantasiado de comunismo se perpetua na ficção ideológica do “Território livre das Américas”.Os autores sempre reservam o melhor do assunto para o fim, considerando que um bom arremate cativa o público. Lamento decepcionar a quem lê isto, mas o desembarque da Brigada 2506 na Baía dos Porcos terminaria muito pior do que a Guerra da Coreia.
John Kennedy confrontava a disparada soviética na corrida espacial, recuou na Crise dos Mísseis e resolveu desviar a atenção dos seus fracassos elegendo o Vietnam como palco para defender a democracia contra a ameaça comunista. Ele mandou os primeiros contingentes de 16.500 “conselheiro militares” para o Vietnam do Sul, iniciando a escalada da guerra que repetiu fracasso da Coreia.
Os Estados Unidos enviariam 2 707 918 soldados nos rodízio dos recrutamentos, sem contar os civis agregados às Forças Armadas – técnicos, pessoal das agências de segurança, assistentes sociais e burocratas. Os 58 267 mortos em combate foram proporcionalmente inferiores aos 54 246 mortos na Coreia, levando-se conta a duração dos conflitos.
Números podem chocar mas não doem. Apenas registram os 75 000 mutilados; os 23 214 totalmente incapacitados; dois quais 5 283 sem membros e 1 081 com amputações múltiplas. A média de idade dos mortos oscilou em torno os 22 anos, quatros menos que na II Guerra Mundial. O mais velho morreu aos 62 anos; 8 283 tombaram com 19 anos, e 33 103 tinham apenas 18 anos. Entre todos, morreram oito mulheres. Que todos descansem em paz!
P.S. O título desta memória era POR QUEM OS SINOS NÃO DOBRAM. Eu o mudei para não ser acusado de plagiar o romance de Ernest Hemingway sobre a Guerra Civil Espanhola, For Whom the Bell Tolls, escrito em Cuba. O herdeiros de Hemingway poderiam reclamar mas sem direito a reivindicação de originalidade, pois o sino tocou primeiro no réquiem do poeta e reverendo anglicano John Donne, contemporâneo de Shakespeare. Favor enviar as reclamações para hbcomborges@gmail.com
O cabo 1328, praça de 1964, e o seu fuzil ordinário/1918, FO, tão velho que matava os comunistas de tétano.
Ordem do dia para todos os dias: Atenção, batalhão. Eu, o cabo 1328 da 1ª Companhia de Carros de Combate, a muito bem-feita de corpo e perfumada CCC, do 16º Regimento de Infantaria, RI, da 7ª RM, em Natal, RN/BR, comunico que o presidente Jair Bolsonaro (PQP) afronta a verdade histórica (coisa de comunista) ao negar os termos do glorioso Ato Institucional Nº 1, assinado há exatos 57 anos, em 9 de abril de 1964. Declaro para o devido registro no Regulamento Interno dos Serviços Gerais – RISG – que sou Testemunha Dermatológica do Memorável Evento (TDME). Naquela Data de Saudosa Memória (NDSM) eu estava no alojamento com as calças arriadas, polvilhando NEOCID numa Impertinente Infestação de Chatos Bolcheviques (IICB). De acordo com o meu chapa Paulinho gogó, o fato é venéreo. O regimento inteiro teve CCG: chato, chulé e gonorreia. Talvez o capelão tenha escapado, mas não dou certeza.
General Sizeno Sarmento lê o AI-1. Foto Correio da Manhã – Arquivo Nacional – domínio público
A justificativa do notável dedo duro Francisco Campos no introito do AI-1 conceituou “…O movimento civil e militar que acaba de abrir ao Brasil uma nova perspectiva sobre o seu futuro. O que houve e continuará a haver neste momento, não só no espírito e no comportamento das classes armadas, como na opinião pública nacional, é uma autêntica revolução… Esta é a forma mais expressiva e mais radical do Poder Constituinte. Assim, a revolução vitoriosa, como Poder Constituinte, se legitima por si mesma.” Abaixo assinado: general Artur da Costa e Silva; tenente brigadeiro Francisco de Assim Correia de Melo; almirante Augusto Hamann Rademaker Grümewald; e Ranieri Mazzilli, assinatura inútil. Mazzilli era o presidente da Câmara que foi para o beleléu.
No dia seguinte, 10/4/1964, o Comando Supremo da Revolução suspendeu por dez anos os direitos políticos de 102 agentes de Moscou. Aquela gentalha vermelha obstruía a ordem e o progresso. Foram os artífices da mentalidade nefasta contra baixarmos as calças para o mito do nosso mito, Donald Trump. Resta o consolo de não pulverizar com NEOCID a grana escondida na cueca, e o conforto da salvação nacional pelos cinco atos institucionais que viabilizaram as prisões, as torturas, as cassações, os exílios, o fechamento do Congresso, a censura, a supressão dos direitos políticos e outras providências salvadoras da democracia que o presidente nega ter sido uma ditadura, como a negou a pandemia que mata 4 000 por dia.
Charge de Aroeira – pirateada numa boa do facebook – fair copyright por causa justa
Desmentir o presidente tonou-se fato corriqueiro, como coco ser fruto de coqueiro. A amnésia nacional também nunca foi novidade. Muitos resmungam contra o Ato Institucional nº5 alheios à tragédia da ditadura militar só ter se estabelecido como sequela do AI-1. O presidente desqualifica a “Redentora” mais ou menos como a reduziu pandemia Covid a uma gripezinha, e manipula o medo da contaminação política e epidêmica com ameaças quase explícitas. Parece que o Brasil não se lembra de tido coragem. Ou isso só existe na letra do hino?
Todo mundo também se esqueceu que o 9 de abril é o dia nacional do aço, dura ironia no aniversário da dita dura. Tá na folhinha, pode conferir. Em honra desta magna data e suas efemérides (MDSE), o cabo 1328 complementa sua Ordem do Dia com decisão exemplar: Atenção batalhão, quem está com chatos forma aqui na direita; os chatos por natureza, formam no centrão; e os pentelhos na alinham na esquerda mesmo. A partir deste momento histórico vigora um nova hierarquia nas nossas briosas fileiras:
Do posto de capitão pra baixo, tudo é general. De general pra cima, todos – de cabo a rabo – estão promovidos a cabo. No nosso exército, cabo manda mais do que o bajulador Rodrigo Otávio Soares Pacheco (ROSP) apita na panela do Senado. E o cúmplice sob a panela da Câmara, Artur Lira, vulgo crocodilo das Alagoas (VCA), não pode virar bolsa Lacoste enquanto não desengavetar pelo menos um dos 105 requerimentos de impeachment protocolados contra o seu tutor: o capitão negação.
Atenção, cambada de civis, paisanos, mimimis e outros mariquinhas. O comando para o início de qualquer deslocamento nas fileiras militares é: “ordinário, marche”. E o comando de encerramento dos desfiles é “fora de forma, marche”. A partir desta ordem do dia, o intrépido cabo 1328, da classe de 1964 etc., concorda com a determinação autocrática do STF (Sargento Tô Fodido) e atualiza os comandos. O rompimento (termo técnico) para o fim dos desfiles passa a ser: “fora de forma marche, ordinário.” A rima com bolsonário é por conta do recruta Zero. E haja panelaço.
Favor encaminhar críticas e contribuições para hbcomborges@gmail.com