Os anéis dos dedos do mundo

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 A chama que uniu a humanidade no pandemônio da Covid agora ilumina as lembranças do Japão, aonde eu, menino pensava chegar cavando um buraco bem fundo na areia. Voar é mais fácil e perdi a ingenuidade a jato. No fim de uma longa curva no rumo Leste sobre o Oceano Pacífico, vi o sol, escarlate como um tomate, no céu de cetim, tela do Fujiyama. Hoje, toco no screen e tenho o vulcão sagrado na palma da mão. Volto ao império samurai e me inclino diante da sua dignidade ao honrar os aros entrelaçados que simbolizam aliança e jogo limpo entre os povos dos cinco continentes: Azul (Europa), amarelo (Ásia), preto (África), verde (Oceania) e vermelho (Americas). São os anéis dos dedos do mundo.

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O Japão desafiou o vírus fatal para unir 205 países mais uma equipe de refugiados na 32ª Olimpíada da era moderna. Domo arigatô, Nippon. Aceite a minha saudade como tributo ao esforço, eficiência, dignidade e arte na realização dos jogos. Banzai: “vida longa” ao exemplo que continuará nas Paraolimpíadas. Em outro grande trauma global, a crise de energia de 1973, o Jornal do Brasil me mandou cobrir os efeitos do boicote árabe ao fornecimento de petróleo e o quintal da minha infância virou a estação Shimbashi, onde Policiais com luvas brancas comprimiam as pessoas para o interior dos vagões do metrô como quem força mais roupas numa mala já cheia.

Fiz conexões aleatórias pensando em escrever sobre a volta ao jornal, partindo de onde eu não nem conhecia nada e ninguém. O lugar mais distante e estranho que eu já estivera. O vento cinzento do outono me soprou até a vitrine de um cardápio bilíngue de “comida venenosa”. Resolvi me envenenar com saquê. O sininho da sorte tilintou e deixei os sapatos no vestíbulo do ambiente colorido por lanternas de papel. 

Tsuru, a ave venerável

Os clientes sentados no tatame, em torno de mesas baixas, pescavam a comida com pausinhos, como as garças mariscam na água rasa. Quem come com bico tem a essência de ave, como o Tsuru, símbolo da fortuna, vida longa e felicidade. Pedi saquê e mostrei a minha Nikon ao sushiman que autopsiava um baiacu, numa mímica de permissão para fotografar. Ele apontou o cardápio ilustrado e um cliente coreano que acompanhava a cena traduziu a minha intenção

O velho que meditava sentado sob o altar de um buda rechonchudo despertou do transe e disse algo. O tradutor, Mr. Wu Shao Pai, sul coreano, informou que Shimizo San, dono do Sharaku, perguntava por um “sobrinho com frutas” no Mercado Público de São Paulo. Pedi desculpas por não conhecer a todos na colônia japonesa de SP, mas as fotos foram permitidas. Depois de vários filmes, Shimizo San ordenou a cágada culinária. 

O sushiman Watanabe e o cágado decapitado – foto HBy

O sushiman caçou o bicho numa caixa com serragem e colocou-o de costas na prancha. Ao contrário das tartarugas, que retraem a cabeça como um carro entra na garagem, os cágados as encaixam nas laterais dos cascos. Era um cágado de água doce, a criatura mais tímida do oriente. O sushiman esticou-lhe o pescoço e tsluch, com o cutelo. A cabeça decepada abria a boca num pires, com os olhinhos atônitos, enquanto o sangue esguichava num pote de cerâmica.

O pote de Shimiso San

Shimizo San me entregou o pote, inclinando-se com a dignidade dos carvalhos, e o coreano sussurrou que a homenagem era irrecusável. Sangue de cágado é desbotado, com coágulos brancos, mas bebi aquela gosma. Depois a garçonete me entregou o pote embrulhado num lenço de seda, gratidão de Shimizo San pela hospitalidade brasileira ao seu “sobrinho com frutas”. Ele queria saber quem me indicara o Sharaku. Expliquei que havia me perdido de propósito para escrever sobre como encontraria o caminho de casa, lá no outro lado do mundo, no fundo do buraco que cavara no quintal quando era menino, e fora atraído pela placa de comida venenosa. 

 – Tira veneno, senão mata cliente, né? 

 A garçonete somou a despesa numa calculadora e Shimizo San conferiu a conta num ábaco. O sangue do cágado foi gratuito e a conferência da operação eletrônica na tabuada secular explica a convivência entre a tradição e tecnologia no país onde o ritual do chá é mais complicado que uma placa mãe. 

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O tradutor coreano perguntou aonde eu me hospedava. Respondi que me desfizera do mapa de propósito, sabendo apenas o nome do hotel. Mr. Wu Shao Pai sorriu redondo como um sushi e me levou até a porta para apontar o reflexo verde do letreiro do Dai-Ishi, três quarteirões adiante. Caminhei na neblina, entre origamis de sombras, sorrindo da incompetência em não conseguir me perder na megalópole samurai. 

Sayonara, Fujiyama! Segui o Sol no regresso ao ocidente, chegando a Los Angeles na data anterior à partida do Japão. Desentortei o fuso horário ao som dos Beatles. A banda havia rompido. John Lennon proclamava o fim do sonho, mas o meu sleeping bag era azul, com forro de cetim dourado. E quando os cantores dos cinco anéis do entoaram Imagine na cerimônia de abertura da Olimpíada de Tokyo, a paz de John Lennon e Yoko Ono me envolveu, então abracei a todos os povos do mundo. A cerimônia do encerramento foi ainda mais comovente. Acho que vou cavar outro buraco no quintal.

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