Com todo o respeito aos glúteos federativos do Brasil, 314 deputados empurram outra imoralidade entre as pernas da mamãe República. Trata-se da “emenda aglutinativa” ao Projeto de Emenda Constitucional (PEC) das Precatórias, manobra do Centrão que autoriza o calote das dívidas públicas sacramentadas pela Justiça, para financiar programas assistenciais com sobras para os candidatos na próxima campanha eleitoral. É o caso do Auxílio Brasil, substituindo a Bolsa Família como sacolão de votos.
Charge pirateada por precatória
Centrão é a máfia majoritária de apoio ao governo no Congresso; legendas parasitas do mercado político gerenciadas pelo senador piauiense Ciro Nogueira, terceiro titular da Casa Civil no atual mandato. Ele deve garantir o engavetamento dos 126 pedidos de impeachment do presidente Jair M. Bolsonaro e negocia as manobras eleitoreiras camufladas como providências do Executivo. Ciro Nogueira é indiciado em duas denúncias criminais e três inquéritos de suborno que hibernam no STF. Se você também está enojado mude de site. Não precisa de me pagar nem um like, a nova moeda social; mas perde informações atuais sobre como a miséria nacional elege oportunistas manipulados pelo alagoano Arthur Lira, o presidente daquela casa de tolerância mais conhecida como Câmara. Ciro Nogueira e Arthur Lira, ambos do Partido Progressista, se completam como um crocodilo e a bolsa da sua pele.
A propostainconstitucional foi parido na quinta feira dia 4 de novembro, na moita da madrugada casuísta. O pai de aluguel é o relator @Hugo Mota (Republicanos, PB) e a criança se chama Emenda Parlamentar; é a cara da cidadania desmoralizada pela propina de R$ 20 milhões do Orçamento Secreto (RP9) para cada padrinho da coitadinha extraída a fórceps, sem a anestesia dos trâmites regimentais.Resumindo o trambique de bilhões a uma pedalada, (cartas) precatórias são dívidas do governo com sentenças de pagamentos sacramentadas definitivamente pela Justiça, nos termos da Constituição. A proposta oficial é parcelar essa despesa já previstas no Orçamento, empurrando-a para o próximo mandato e, provavelmente, outra manobra protelatória.
A PEC prevê o estabelecimento de um “teto” anual para o pagamento de precatórias. Em 2022, esse valor seria de R$ 41 bilhões. Considerando a dívida de R$ 89,1 bilhões, isso deixaria em aberto um total de R$ 48,1 bilhões para o ano seguinte. Desses R$ 89,1 bilhões, pelo menos R$ 16 bilhões são devidos à Bahia, Ceará, Pernambuco e Amazonas por erro do governo no repasse de recursos do antigo Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (Fundef), atual Fundo de Manutenção da Educação Básica (Fundeb).
Glúteos e fundos se confundem, afinal o Governo Federal não monopoliza o mal. Os credores mais necessitados ou menos pacientes vendem suas cartas precatórias com um tremendo deságio devido aos atrasos de anos nas quitações do governo. Em termos populares, agiotas credenciados exploram a dívida pública acumulada por incompetência ou má fé, e paga com o seu pichulé.
RETROSPECTO
Os nobres mafiosos do Centrão aprovaram a Lei das Diretrizes Orçamentárias a toque de caixa para permitir o recesso do Congresso e sabotar a Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia. Apostaram no encurralamento do presidente pela CPI do Senado para extorquir verbas eleitorais. Pobreza e fome degeneram a memória e os eleitores na fila do auxílio emergencial já esqueceram que o presidente Jair M. Bolsonaro exigiu o voto impresso, sob ameaça de impedir as eleições acionando as Forças Armadas. Ele desqualificou simultaneamente o uso de máscaras, as vacinas e as urnas eletrônicas, numa espécie de cloroquina política. Era o tratamento preventivo para replicar golpe de Donald Trump no caso de derrota eleitoral. Quem o elegeu foi vítima de estelionato cívico, neste país onde – obrigado @Chico Buarque – promessa política é “passagem desbotada na memória.”
Embora os brasileiros alimentem muito bem a Jair M.Bolsonaro e seus três filhos parlamentares, a memória do presidente também desbotou. Ele prometeu governar com 15 ministros e o 23º ministério, o MEP, Ministério do Emprego e Previdência (MEP) foi entregue ao caixeiro de barganhas Onix Lorenzano para acomodar Ciro Noqueira, velho freguês da Polícia Federal, amigo do peito do Ministério Público do baiano Augusto Aras, parceiro que manipula a omissão do MP relativa ao presidente como trampolim para o STF.
Tudo o que é ilegal na administração custa muito dinheiro, dinheiro público, o seu dinheiro, o dinheiro das precatórias, dinheiro injetado no Fundo Eleitoral e no Fundo Partidário. Isso vincula os fundos aos glúteos aglutinativos da PEC das Precatórias, no saco sem fundo dos interesses políticos federais, estaduais e municipais. Só o Fundo Partidário ensaca R$ 937 milhões para repartir entre as 23 siglas credenciadas às fatias do bolo. Outros 10 partidos sem o mínimo de votos indispensáveis para participar da rachadinha arrebanham legendas de aluguel, satélites do “Centrão”, empenhados na briga de foice por cargos e comissões em troca de votos no plenário.
Para aplacar tantas ambições e ciúmes, o deputado paraibano Hugo Mota remendou a PEC das Precatória e a própria opinião tanto quanto o seu tutor trocou de partido: Arthur Lira já foi fiel ao PFL, PSDB, PTB, PP, PMN e voltou ao Partido Progressistas, herdeiro da Aliança Renovadora Nacional, a Arena, o braço político da ditadura militar de 1964. A propósito, a legenda do PP é “Oportunidades para Todos”. Lira é fiel ao oportunismo entre a extrema direita e a direita, atuando como deputado pecuarista, advogado, empresário, etc.
Etc. no caso foi manobrar a aprovação da PEC da Precatórias sem submeter as mudanças ao exame indispensável nas comissões e somar os votos de parlamentares ausentes do país que se desmoralizam na COP26, na Escócia, tapando (com todo respeito) o buraco do presidente escorraçado pelos líderes e a opinião pública mundial. Em vez de encarar as consequência da sua política incendiária, negacionista, latifundiária, ultrarreacionária, Jair Bolsonaro preferiu a chuva de bosta e os protestos contra a sua presença na reunião do G20, na Itália.
Para higienizar rápido esse assunto fétido, a PEC das precatórias também imuniza o governo pelo mesmo motivo do impeachment da presidenta Dilma Dilma Rousseff: o rombo no teto do orçamento federal. Os 314 padrinhos da PEC aglutinados nos glúteos do Centrão (que ironia) apostam na miséria dos milhões que trocam seus votos por uma cesta básica, pagas com os R$ 72 bilhões das emendas parlamentares já inclusas no Orçamento, mais R$ 10 bilhões do calote das precatórias.
O dinheiro público desviado da PEC para a compra dos parlamentares é oculto na sigla RP9, o orçamento secreto do Governo Federal. Cento e quarenta e quatro deputados votaram contra, seis apelaram para o STF impugnar a votação e impedir as cartas marcadas do segundo turno na Câmara, previsto para a próxima quarta-feira, 10 de novembro, o “Dia da Penitência” no calendário Católico. O responsável em última instância pela Proposta de Emenda Constitucional das Precatórias é o “terrivelmente evangélico” Jair Messias Bolsonaro, arauto da filosofia político futebolística do jogo “dentro das quatro linhas da Constituição.”
Aparentemente, o presidente da República, Jair M. Bolsonaro, desistiu de impedir as eleições de 2022, portanto precisa articular coisas como a PEC das Precatórias para tirar algum proveito da situação. O presidente do Tribunal Superior Eleitoral, @Luís Roberto Barroso, impediu o candidato Jair M. Bolsonaro de mudar a apuração dos votos de acordo com o seu interesse espelhado no assalto ao Congresso Americano por Donald Trump. É por isso que procura-se um palavrão compatível com o vocabulário presidencial. Vá à M. não é tão sujo quanto as atitudes oficiais, mas, por enquanto, quebra o galho. Assunto encerrado: quem quiser já pode vomitar.
P.S. Segundo o Jornalista Epaminondas Lima de Amorim, que conheço desde a redaçãpo do JB na Rio Branco e nunca soube que alguma das suas informações fosse desmentida, “Dados oficiais apontam que quase R$ 1 bilhão foram gastos em apenas dois dias com as emendas obscuras, sem identificação dos parlamentares beneficiados, na semana que antecedeu a aprovação em primeiro turno da PEC dos Precatórios.”
Lá se foram 529 outubros desde que Cristóvão Colombo, os três irmãos Pinzón, frei Bartolomé de Las Casas mais 83 navegantes desembarcaram na ilha Guanahani, a leste das Bahamas. Eles vinham das trevas no Velho Mundo nas caravelas Santa Maria, Pinta e Niña, após 12 semanas de suor e medo no Mar Tenebroso. Ostentavam cruzes, espadas, estandartes e arcabuzes; fediam como as ratazanas dos porões, mas foram acolhidos pelo nativos como criaturas divinas. Retribuiriam apropriando-se de tudo naquele paraíso, inclusive das almas ingênuas e nuas como um ovo.
Colombo chega a Guanahani com as ferramentas de domínio das Américas. Imagem abcnews.go. com
Quem considera Ganahani, atual San Salvador, como berço da América repete o engano de Colombo. Ele delirava com as narrativas de Marco Polo sobre Cipango e Cathay, com ruas calçadas de jade e pagodes dourados, mas só havia choças no suposto reino do Grande Khan. Decretou o corte da língua de quem negasse estar na Ásia e insistiu no erro até morrer destituído da própria glória, 14 anos depois. Hoje, os revisores da História o acusam de genocídio e os novos humanistas vandalizam os monumentos em sua homenagem.
Meu avô Potiguar assa um português, conforme o relato de Américo Vespúcio sobre a expedição de Gaspar Coelho, em 1502. Mapa de domínio público.
Cristóvão (portador de Cristo) Colombo revolucionou a História e a Geografia, porém perdeu a honra de denominar as Américas quando o impressor e cartógrafo alemão Martin Waldseemüller anexou ao planisfério que produziu em 1507 a tradução do relatório de Américo Vespúcio sobre suas duas expedições às terras no Atlântico concedidas a Portugal pelo Tratado de Tordesilhas (1494). “Quattour Americci Vespucci Navigationes” identificou o Brasil como América e o alvoroço europeu pela ilustração de canibalismo no mapa Kunstmann II (atribuído a Vepúcio) contribuiu para popularizar o batismo americano do Mundo Novo.
O atual território dos Estados Unidos só surgiu no horizonte da História 21 anos após a descoberta de Colombo,quando Juan Ponce de León buscava a fonte da Juventude. Ele acompanhara Colombo na segunda viagem a “Ásia”, sendo recompensado com o governo de Boriquén, atual Porto Rico, onde foi encantado pela lenda dos Taínos sobre a fonte de águas mágicas que jorrava na Terra de Bimini. Fernão de Aragão, viúvo da rainha Isabel de Castela, completava 61 anos, e a esperança de rejuvenescer influiu na concessão ao aventureiro de três anos de direitos exclusivos na exploração do que descobrisse.
Ponce de León partiu de Boriquén em março de 1513. Seguiu a Corrente do Golfo no contorno do Grande Canal Bahamas para noroeste e, em 2 de abril, na Páscoa das Flores, chegou à “ilha” que batizou de Florida. A fama brutal dos conquistadores o antecedera e, ao contrário da hospitalidade na acolhida de Colombo, os recém chegados foram repelidos pelos nativos Seminole. Fernando de Aragão já havia morrido quando Ponce de León voltou à Florida oito anos depois, foi flechado na coxa e morreu do ferimento.
Colombo jamais pisou no continente norte-americano. Esteve apenas em Darién, atual Panamá, América Central, na sua quarta e última viagem ao Caribe, 1502/1504, sempre insistindo estar estar no Oriente. Na mesma época Vespucci mapeava o litoral da terra que Cabral batizara como Ilha de Vera Cruz, desfazendo o maior engano português de todos os tempos. Juan Ponce de León seria o primeiro espanhol a desembarcar no território dos Estados Unidos, mas é considerado apenas como descobridor da “Flórida” – com o acento que desvirtua o perfume do castelhano e não significa nada.
O mesmo critério exige que Colombo só tenha descoberto as Bahamas e outras ilhas do Caribe, inclusive Cuba. Pedro Álvarez Cabral, por sua vez, esteve apenas uma semana na costa da Bahia, mas a história luso-tupiniquim lhe atribui a descoberta do Brasil. Assim, a América original era o Brasil, enquanto os Estados Unidos ostentam o sobrenome do cartógrafo florentino que lhe foi atribuído por um impressor alemão. Os dois países entraram para a história como ilhas, durante a Páscoa (florida) e o primeiro acidente avistado no Brasil, permanece como em 1500, graças a reserva do índios Pataxó, no Parque Nacional de Monte Pascoal, em Porto Seguro, no sul da Bahia.
Portanto, meus caros antropófagos, o Brasil era a América e os dois países entraram para a história como ilhas, durante a Páscoa, quando os coelhos não punham ovos de chocolate. A geografia é vítima da História, então, com licença das memória de Colombo e Vespúcio, os testes de Carbono-14 em utensílios e resíduos encontrados em L’Anse aux Meadows, Terra Nova, Canadá, confirmam que os nórdicos antecederam aos portugueses, espanhóis e italianos nas Américas.
A datação científica confirma a Saga Islandesa de Eirikr Hinn Raudi, segundo a qual Erik Thorvaldson, o Vemelho, matou outro viking, foi banido e partiu com seu clã para a Groenlândia. Num dia gelado por volta do ano 1000 da Era Cristã, o norueguês Bjarni Herjólfsson apareceu no fiorde do exílio falando sobre os confins do Oeste, onde avistou terra durante uma tempestade. Leif Erikson (filho de Erik) comprou o barco de Bjarni, reuniu 35 homens e foi confirmar a existência de Vinland, a Terra das Videiras.
Dez anos depois, Thorfinn Karlsefni liderou outro grupo até Vinland, onde sua mulher, Gudridr, pariu o menino Snorri – provavelmente o primeiro branco nascido nessa parte do mundo. Não se sabe a causa dos estrangeiros louros como o trigo maduro terem abandonado a colônia. Especula-se que os peles vermelhas seriam mais ferozes que eles. O certo é a hibernação de Vinland no folclores islandês até 1961, quando a UNESCO reconheceu vestígios vikings deixados em L’Anse aux Meadows, na Terra Nova, Canadá, cinco séculos antes da chegada, conquista, posse e escravização das Américas pela Espanha e Portugal.
Eu percorri a rota da descoberta como repórter e tripulante do Lisa, um veleiro de 28 pés do piloto Fernando de Faria. Nós partimos de Miami para o Rio de Janeiro e navegamos na esteira da flotilha de Colombo desde o sudeste das Bahamas até Cuba, na borda sul da Corrente do Golfo. Esta postagem relativa ao aniversário da América é parte de O Complexo de Cuba, livro cuja publicação interrompi para participar do enfrentamento à pandemia Covid que matou, até agora matou 608 211, brasileiros, segunda maior letalidade mundial, atrás apenas dos Estados Unidos, apesar da população 1/3 menor: 212 milhões.
A Comissão de Inquérito do Senado sobre a atuação do governo no genocídio oficial entregou ontem às diversas instâncias judiciais o relatório que recomenda o indiciamento do presidente Jair Messias Bolsonaro por nove crimes, mais 79 pessoas, entre elas três dos seus filhos, ministros, ex-ministros, deputados federais, médicos, funcionários públicos e empresários. O documento será encaminhado à Corte |Internacional de Justiça das Nações Unidas.
O acompanhamento da CPI atrasou a postagem deste trabalho, mas nunca é tarde para lembrar uma das maiores aventuras humanas. Reconstituí episódios demais, então vou dividi-los em dois ou três. E, como nas velhas séries, não perca o próximo capítulo: O Lisa na Tempestade.
“Guterres, a cara do mundo” Alegoria e foto do autor
OSecretário Geral António Guterres abriu a 76ª Assembleia da Organização das Nações Unidas disparando o alarme: “Nós estamos à beira do abismo.” Em compensação, o presidente Jair Bolsonaro apresentou ao mundo o país das maravilhas. Fez da tribuna mais importante do planeta um poleiro de papagaio, repetindo conquistas e virtudes democráticas que projetam o Brasil como uma piada:
ONU, 21/09/2021 – Desculpe a piada, louro, mas o Bolsonaro também só diz palavrão e besteira- foto pirata da www
“O Brasil mudou, e muito, depois que assumimos o governo em janeiro de 2019. Estamos há dois anos e oito meses sem qualquer caso concreto de corrupção…Venho aqui mostrar o Brasil diferente daquilo publicado em jornais ou visto em televisões.”
Então mostrou um país formidável, onde…”milhões de brasileiros, foram às ruas, no último 7 de setembro, data de nossa Independência, na maior manifestação da nossa história, para mostrar de forma pacífica e patriótica, que não abrem mão da democracia, das liberdades individuais e de apoio ao nosso governo.“
Panelaços à parte, 14 milhões de desempregados (40% mais do que a população do Portugal de Antônio Guterres), 40 milhões de “invisíveis” abaixo da linha da pobreza, inflação e juros acelerados, serviços públicos precários, violência fora de controle, o novo cangaço assediando cidades, 600 mil mortos na pandemia Covid até este momento, a Comissão Parlamentar de Inquérito que denuncia o boicote à prevenção sanitária e desmascara a corrupção oficial, o gabinete do ódio, o recorde de rejeição ao governo… não, nunca, nada disso jamais existe no éden do Messias redentor do Brasil .
Charge HERB , pirateada por uma causa justa do jornal norueguês no Dagningen – Fair copyright
Ele não ouviu António Guterres lamentar as consequência da desinformação e desconfiança que aprofundam a competição entre as potências econômicas, antecipando uma ruptura geopolítica “muito mais previsível do que a Guerra Fria.” Se ouviu, ignorou o alerta sobre a crise humanitária, as sequelas da pandemia Sars-Covid, guerras, multidões de refugiados, fome, desastres ambientais, egoísmo político, conflitos entre as grandes potências.
“Eu estou aqui para soar o alarme. O mundo deve despertar…” Nós estamos num beco sem saída para a destruição.”
Os apelos e advertências dos estadistas que o antecederam, ressaltaram a limitação política do presidente, cujo preconceito ideológico angariou mais antipatias para o Brasil… “Se levarmos em conta que estávamos à beira do socialismo…Tudo isso mudou. Apresento agora um novo Brasil com sua credibilidade já recuperada.“
A credibilidade democrática ficou explícita na atitude do ministro das Relações Exteriores, Carlos França, ao intimidar os manifestantes que assediaram a comitiva apontando-lhes a mão em forma de pistola. O chanceler teria sido mais útil se houvesse informado ao presidente que o anfitrião do Brasil na ONU foi Primeiro Ministro socialista de Portugal por dois mandatos, ex-presidente da Internacional Socialista e Alto Comissário para Refugiados. @António Guterres dificilmente apoiará a pretensão declarada na tribuna pelo presidente:
“Apoiamos a Reforma do Conselho de Segurança ONU, onde buscamos um assento permanente.”
O “novo Brasil” é um velho conhecido, e “a sua credibilidade já recuperada” incorpora e identifica os brasileiros com o líder que elegeu e nos representa. Qualquer cidadão dos 193 países da ONU podem esfregar na nossa cara que o presidente novo Brasil homenageou no Congresso Nacional, impunemente, o maior torturador da ditadura brasileira, o coronel Carlos Brilhante Ulstra, (codinome doutor Tibiriçá). Vide a sua declaração no volto pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rouseff.
Ele se elegera vereador pelo Rio de Janeiro e deputado por sete sete mandatos, com oito filiações partidárias. Deve os 29 anos de carreira parlamentar à intermediação de vantagens militares e apoio a grupos milicianos, tendo introduzido três filhos na política com as mesmas características: falcatruas nos gabinetes, rechadinhas, leilão cargos, comissões, influências e vantagens. O toma lá, cadê o meu, dá cá.
O deputado Bolsonaro apresentou 171 projetos, aprovou dois: um para isentar bens de informática do Imposto sobre Produtos Industrializados, IPI. Em 2016, ele subscreveu o projeto do Partido Progressista que o projetou no cenário nacional, autorizando a fosfoetanolamina sintética para o tratamento do câncer. A ex-presidente Dilma Houssef sancionou o projeto mas a Associação Médica Brasileira denunciou a ineficácia da “pílula do câncer” e o STF revogou a permissão.
O kit Covid (cloroquina & azitromicina) é o segundo escândalo “científico” do presidente acusado de genocídio no Tribunal Penal Internacional, em Haia, Holanda. A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil relaciona os crimes ambientais do presidente do “novo Brasil:”
“Nenhum país do mundo possui uma legislação ambiental tão completa. Nosso Código Florestal deve servir de exemplo para outros países...Antecipamos, de 2060 para 2050, o objetivo de alcançar a neutralidade climática. Os recursos humanos e financeiros, destinados ao fortalecimento dos órgãos ambientais, foram dobrados, com vistas a zerar o desmatamento ilegal. E os resultados desta importante ação já começaram a aparecer! Na Amazônia, tivemos uma redução de 32% do desmatamento no mês de agosto, quando comparado a agosto do ano anterior. Qual país do mundo tem uma política de preservação ambiental como a nossa?”
“Apoiamos a vacinação, contudo o nosso governo tem se posicionado contrário ao passaporte sanitário ou a qualquer obrigação relacionada a vacina. Desde o início da pandemia, apoiamos a autonomia do médico na busca do tratamento precoce, seguindo recomendação do nosso Conselho Federal de Medicina. Eu mesmo fui um desses que fez tratamento inicial. Respeitamos a relação médico-paciente na decisão da medicação a ser utilizada e no seu uso off-label. Não entendemos porque muitos países, juntamente com grande parte da mídia, se colocaram contra o tratamento inicial. A história e a ciência saberão responsabilizar a todos.”
A ciência já responsabiliza o governo brasileiro por grande parte das 600 mil mortes na pandemia, resultado da obstrução pessoal, pública, do Sr. Bolsonaro à compra de vacinas. Seu negacionismo científico foi proporcional ao empenho na propagação receita do kit Covid, o tratamento precoce de tantos mortos por falta de ar, sufocados nas próprias secreções. E a velha história relaciona a ” pílula do câncer” à cloroquina, porém perplexa com a obstinação do presidente em defesa da charlatanice comandada por um general tão subalterno quanto incompetente.
Parece castigo que o 4º ministro da Saúde, o substituto de general Pazuello, tenha sido diagnosticado com Covid durante a missão na ONU. Ele já estava contaminado quando viajou para a Conferência e preferiu desfrutar a quarentena em New York, onde respondeu aos mesmos manifestantes que assediaram a comitiva oferecendo-lhes o dedo médio, bem esticado. O gesto cafajeste sugere ao desafeto a introdução do dedo no, digamos, buraco de ozônio. Menos mal que, agora, o dr. Marcelo Queiroga pode se auto medicar com o mesmo dedo.
O vexame terminaria na dedada do dr. Queiroga se Dona Michele Bolsonaro não tivesse resolvido se vacinar em Manhattan, privilégio que insultou aos milhões de brasileiros nas filas de vacinação e aos heróis da Saúde desqualificados por sua escolha e privilégio. Ela é a madrasta da prole Bolsonaro e o seu enteado 03, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, do Partido Liberal, foi diagnosticado com a Covid na volta à utopia do pai.
Um terceiro membro da comitiva também foi infectar as Nações Unidas. A identidade dessa é resguardada sob sigilo, restrição que se encaixa à ausência do presidente na cerimônia de reeleição do procurador geral da República, Augusto Aras, e à vacinação da madame Bolsonaro. António Guterres fez uma diagnóstico sombrio da atualidade, mostrando a Terra na UTI. Apesar da sinceridade que desagrada a muitos, arrematou as boas vindas à Assembleia Geral de 2021 com esperanças: “Os problemas que nós criamos são problemas que podemos resolver”.
Os brasileiros também podem solucionar os seus problemas. Nesta viagem do presidente não houve, por exemplo, nenhum flagrante como na comitiva do presidente Jair Bolsonaro ao Japão em junho de 2019 para a reunião do G-20,quando o sargento da Força Aérea Brasileira Manoel Silva Rodrigues foi flagrado em Sevilha, Espanha, com 39 quilos de cocaína num dos aviões da comitiva presidencial.
Era a sétima vez que o sargento Manoel servia de mula para tráfico, cujo chefe continua anônimo e impune. A mula da FAB continua presa na Espanha e recebe R$ 8 mil de salário. Dessa vez a comitiva traficou apenas a variante brasileira do vírus Corona e o discurso que infectou o brasileiros com vergonha. Enfim, o paraíso oferecido à comunidade das nações pelo Sr. Jair Messias Bolsonaro é mais falso do que receita de kit-Covid.
A conflagração orquestrada pelo governo para rachar a legalidade no dia 7 de setembro e restaurar o autoritarismo é criminosa mas serve para comparar, 199 anos depois, o grito de Independência do imperador com o berro do presidente contra a democracia. As semelhanças entre os protagonistas tem aspectos engraçados, não é jacaré? Mas prepare o lenço, o que é ridículo também dá pra chorar.
” Pedro I e a Constituição” – Esta Litografia do Museu Histórico Nacional insinua algo mais autêntico que o zelo pela carta magna.
Anauê nativos e inativos. Olá assinalados lusitanos. Sarava africanos. Todos nós, ingredientes da noss feijoada étnica/cultural, devemos uma parte do Brasil ao suposto proclamador da Independência, Dom Pedro de Alcântara Francisco Antônio João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon, príncipe da Beira, imperador do Brasil, era porra-louca de uma ponta a outra do bigode. E o seu atual sucessor republicano não tem bigode mas também precisa de ser reavaliado.
O caráter do imperador revelou-se na adolescência, quando mandava ferrar pangarés vadios com a marca da cavalariça real e os vendia usando em sociedade com laranja o barbeiro do palácio, Plácido Pereira de abreu. Outro cúmplice famoso das taras e trapaças do príncipe herdeiro era Francisco Gomes de Silva, o Chalaça, também barbeiro, dentista e sangrador, com negócio aberto na Rua do Piolho, belo endereço para o sanguessuga alcoviteiro. Os mais zelosos com reputação aristocrática do que com a verdade preferem exaltar o vulto intrépido do Grito do Ipiranga, mas eco histórico de Dom Pedro I foi só um pio na Proclamação da Independência.
O Brasil deve o rompimento decisivo para sua autonomia nacional ao ministro do Reino e dos Negócios Estrangeiros, José Bonifácio de Andrade e Silva, e à princesa consorte Carolina Josefa Leopoldina de Habsburgo-Lorena, filha de Francisco I da Áustria, cunhada de Napoleão Bonaparte. Aquela flor em pessoa casou por procuração com o espinho da sua breve existência; o sonho de uma noite de verão tornou-se num doloroso pesadelo. A pompas e as circunstâncias do noivado encantaram em Viena. Duas fragatas com utensílios para instalar a embaixada austríaca no Rio antecederam a noiva. Ela chegou ao Rio seis meses depois, em novembro de 1817, com 40 do caixões de enxoval, sua biblioteca, presentes, pajens, a camareira-mor, o mordomo-mor, seis damas, guardas austríacos, músicos, cientistas, um capelão, um secretário particular, um médico, um esmoler-mor e o barão Ludwig von Eschwege, pioneiro da siderurgia no brasil. O barão comentou o casamento numa carta para o estadista mais proeminente da época, Klemens von Metternich:
“Por falar no Príncipe Herdeiro, posto que não seja destituído de inteligência, é falho de educação formal. Foi criado entre cavalos, e a princesa cedo ou tarde perceberá que ele não é capaz de coexistir em harmonia.“
O garanhão só pensava naquilo, mas esquecia o que não lhe convinha, inocentado pelos ataques epiléticos. A crise mais constrangedora aconteceu na lua-de-mel. Ninguém avisara a noiva sobre a doença neurológia e a tara sexual do marido. Sem contar os abortos, Pedro I gerou 28 filhos confirmados. Os dois primeiros, com a bailarina francesa Noemy Thierry Valency. Ambos morreram após o parto, livrando a família imperial de dois descendentes de uma puta como eram consideradas as francesinhas do teatro. Noemy seria expulsa da corte e teve sua memória apagada.
O terceiro filho nasceu de outra francesa, Clèmence Saisset, parto alcovitado pelo marido corno, o negociante Pierre Félix Saisset, com loja de papéis e modas na Rua do Ouvidor. O flagrante do adultério lhe valeu o contrato para empapelar as paredes do Palácio, o status de Fornecedor da Casa Imperial (em todos os sentidos), em enteado bastardo, a indenização do seu negócio, mais uma bolsa de 75 mil francos para volta da família à França e uma pensão vitalícia para o pequeno parisiense Pedro de Alcântara Brasileiro. A uruguaia María del Carmen García teve um menino cisplatino. A prole cresceu no ventre de outra mulher casada: Maria Benedita de Castro e Canto, baronesa de Sorocaba.
A lista aumenta com os cinco filhos de dom Pedro com Domitila de Castro e Canto Melo, a marquesa de Santos, irmã da baronesa de Sorocaba, que atentaria contra a vida da irmã pela exclusividade do amante. Afilharada oficial são sete da princesa Leopoldina e um da segunda imperatriz, Amélia Augusta Eugénia de Leuchtenberg. Houve outro menino com Ana Steinhausser, mulher do bibliotecário do palácio; mais o guri de Andozinha Carneiro Leão, sobrinha de Fernando Carneiro Leão, um dos supostos amantes de Carlota Joaquina. A mulher de Carneiro Leão, Gertrudes Angélica, foi assassinada a tiros. Nunca se apurou a autoria do crime, mas o viúvo recebeu o título de conde da Vila Nova de São João.
Luísa Meireles gemeu no parto da penúltima criança de Pedro I gerada no Brasil, e Gertrudes Meireles de Vasconcelos teria fechado a maternidade nacional. Teria porque o garanhão imperial gerou dezenas de bastardos nas alcovas, nas senzalas, na cozinha do palácio, nos bordéis e nos encontros arranjados pelo proxeneta Francisco Gomes da Silva, o Chalaça. “Foguinho”, como o apelidou a marquesa de Santos, nascera em Portugal, mas, no que diz respeito à sacanagem, era louco por uma “jaca” e brasileiro como jabuticaba.
A mais humilhada das suas mulheres foi a imperatriz Leopoldina, a quem os súditos amavam pela bondade e o protagonismo na Independência do Brasil. Dona Leopoldina nascera em Viena, Áustria, filha de Francisco I e Teresa Maria da Sicília. Era sobrinha de Maria Antonieta, a imperatriz decapitada na Revolução Francesa, e também sofreu morte cruel. Ela resistiu a ser arrastada à força pelo marido para a própria humilhação no ritual do beija mão público montado para legitimar a Marquesa de Santos como concubina favorita na corte, e a surra aplicada pelo valente Pedro I teria provocado o aborto aos quatro meses de gravidez. Os historiadores documentam esta denúncia citando as cartas que ela escreveu para a irmã, Marie Louise, a segunda mulher de Napoleão Bonaparte.”
Leopoldina, agredida e humilhada
“Minha adorada mana!Reduzida ao mais deplorável estado de saúde e tendo chegado ao último ponto de minha vida em meio dos maiores sofrimentos, terei também a desgraça de não poder eu mesma explicar-te todos aqueles sentimentos que há tanto tempo existiam impressos na minha alma. Minha mana! Não tornarei a vê-la! Não poderei outra vez repetir que te amava, que te adorava! Já que não posso ter esta tão inocente satisfação, igual a outras muitas que não me são permitidas, escuta o grito de uma vítima que reclama – não vingança – mas piedade, e o socorro do fraternal teu afeto para meus inocentes filhos, que órfãos vão ficar, em poder de si mesmos ou das pessoas que foram autores das minhas desgraças, reduzindo-me ao estado em que me acho, de ser obrigada a servir-me de intérprete para fazer chegar até tu os últimos rogos da minha aflita alma…”
Leopoldinha completava 29 anos e estava grávida pela nona vez ao ser espancada, causa do abordo e da infecção fatal, como se depreende no arremata da carta para a irmã: “Há quase quatro anos, minha adorada mana, como a ti tenho escrito, por amor de um monstro sedutor me vejo reduzida ao estado da maior escravidão e totalmente esquecida pelo meu adorado Pedro. Ultimamente, acabou de dar-me a última prova de seu total esquecimento a meu respeito, maltratando-me na presença daquela que é a causa de todas as minhas desgraças. Muito e muito tinha a dizer-te, mas faltam-me forças para me lembrar de tão horroroso atentado que será sem dúvida a causa da minha morte…”
Os 199 anos do grito da Independência valem para recapitular como a aristocracia lusitana veio civilizar a maloca de Tupã, mato de pau Brasil, infestado de feras, palmeiras, araras, papagaios, antropófagos, Tupis, Tupiniquins, pajés, cunhãs, carapanãs, maruins, muriçocas, piuns, sacis, pé de moleque, bicho de pé, massapê, cana, rapadura, pão de açúcar, café, macaxeira, farinha, pirão, pimenta, tatus, tamanduás, formigas, macacos, jenipapo, jabutis, jabuticaba, degredados, piranhas,pirarucu, cururus,piratas, náufragos, jesuítas, bandeirantes, garimpeiros, traficantes, escravistas, escravos, carapinhas, cafuzos, ouro, ganga bruta, mau agouro, catimba, angu, quilombos, chocalhos, tambor, Xangô, filhas de santo, afoxés, capitães do mato, cangas, chibatas, capoeiras, macumbeiros, mucamas, sinhô, incestos, mulatas, cio, suor, amas de leite, caboclos, moleques, bastardos, sinhás, sinhazinhas de anáguas engomadas, sabiás, sanhaços e outras aves que gorjeiam do lado de cá do além mar, terra povoada por degredados do reino e pretos da costa d’África.
A dinastia dos Orleans e Bragança caiu real tropical porque o príncipe regente, Dom João VI, trapaceou no bloqueio à Inglaterra imposto por Napoleão Bonaparte. Propôs inclusive uma declaração de guerra… para inglês ver. Então o imperador predileto dos doidos mandou o general Jean-Andoche Juneau invadir Portugal. Mas George III, outro maluco que falava sem parar, vítima de uma desordem neurológica grave, foi muito lúcido ao avaliar que a experiência marítima portuguesa convinha aos interesses britânicos na América do Sul. O embaixador em Lisboa, lord Strangford, mandou a corte fugir em novembro de 1807, ou teria o mesmo destino da Espanha, onde Napoleão depôs o rei Carlos IV e entregou o trono entregue seu irmão, Giuseppe Bonaparte.
O problema era convencer a rainha-mãe, também louca, a cruzar o mar tenebroso para viver na selva. Ela perdera o juízo após a morte do filho primogênito, também seu primo e sobrinho, por ela haver casado com o próprio tio, o duque de Bragança.Tantã por tantã, dona Maria I era paciente do reverendo Francis Willis, o mesmo alienista que tratava a porfiria de George III. O regente dom João precisava proteger o trono português contra as conspirações de Carlota Joaquina, sua mulher espanhola, filha de Carlos IV. A galeria dos Bragança mostra um sujeito baixo, balofo, de olhos caídos, bochechas flácidas e boca mole. Tornou-se herdeiro da coroa devido às mortes dos dois irmãos mais velhos e à insanidade. A decisão britânica resolveu o dilema e o regente emitiu um édito: “… Tenho resolvido em benefício dos meus vassalos a passar com a Rainha minha Senhora e Mãe, e com toda a família real, para os estados da América, e estabelecer-me na cidade do Rio de Janeiro, até a paz geral”.
Maria I, interpretação senil de uma alegoria da desciclopedia.org
Dona Maria I esperneou ao ser arrastada para o navio… “Não corram tanto. Podem pensar que estamos a fugir…” e os números também esperneiam entre 14 mil e 15 mil no “Deus nos acuda” do dia 29 de novembro de 1807. A dignidade ficou no cais.Os franceses entraram em Lisboa no dia seguinte e o general Jean-Andoche Junot ainda viu as velas da armada no Rio Tejo, e daí o dito popular para quem perde uma chance: “ficou a ver navios”. Ao todo, 19 embarcações lusitanas, além da escolta do contra-almirante Sidney Smith.O Atlântico teve mais juízo que Maria I e todos os navio chegariam a São Salvador, Bahia, em 28 de janeiro de 1808.
No dia seguinte, o príncipe regente decretou a abertura dos portos às nações amigas. Isto é: a Inglaterra. Outros países só teriam a mesma permissão dois anos depois, com 25% de tarifa sobre seus produtos, o dobro do 12,5% concedido aos ingleses. A viagem terminou em 7 de março no Rio de Janeiro, cidade com uns 60 mil habitantes, sendo 40 mil escravos. A nobreza infestada de pulgas e piolhos foi recebida com fogos, missas, ladainha, novenas, procissões, banquetes, diarreia e muito calor e indignação disfarçada pelos súditos mais ricos, dos quais o vice-rei Marcos de Noronha e Brito havia confiscado as propriedades para alojar o séquito recém chegado. Ela marcara as casas com P.R. – indicativo do confisco em nome do príncipe real – o povo leu “Ponha-se na rua.” Enquanto a corte se instalava, dom João VI tinha que proteger o trono da própria mãe, tia e prima contra, as conspirações de da sua mulher, filha de Carlos IV, o rei espanhol deposto por Napoleão.
Carlota Joaquina, a “Megera de Queluz”
Lua de fel! Carlota Joaquina Teresa Cayetana de Borbón y Borbón, feia como uma cólica, definiu o casamento negociado para aliar Espanha e Portugal contra a França na noite das núpcias. Ela atacou marido a dentadas, a afinal ele também era um bofe, balofo, com a cara flácida como o seu temperamento. Ela tinha 10 anos e ele 18 quando se casaram em maio de 1785. O frade José Agostinho de Macedo, confessor da corte, satirizou escândalo no panfleto “O Gato Que Cheirou e Não Comeu,” e foi punido com injeção de pimenta no ânus, além de desfilar nu pelo Bairro das Marafonas de Lisboa. O estupro matrimonial explica a rejeição de Carlota Joaquina ao filho Pedro e sua preferência pelo caçula Miguel, com quem haveria de conspirar na tentativa de tomar as coroas portuguesa e brasileira do marido e do seu primogênito. Carlota Joaquina consagrou uma convicção profunda dos lusitanos: “de Espanha nem bom vente nem bom casamento”. Temperamento seco como suão que sopra da África para a Península, peçonha no sangue e a ambição ibérica explica o nojo da “megera de Queluz” pelo marido, a ojeriza ao filho Pedro e ódio a este pedaço de Portugal.
Enquanto os Estados Unidos a América lutava o Brasil beijava a mão a Inglaterra venceu a França, exilou Napoleão em Santa Helena e lhe restituiu o trono do rei que até da própria mulher, português. A Revolução Liberal do Porto impôs o retorno da corte e Dom João VI raspou o Tesouro antes de partir, levando na bagagem os restos da mãe que morrera no Rio, em março de 1816. Carlota Joaquina também se foi sem deixar saudades. Bateu os sapatos ao embarcar, gesto interpretado como daqui não quero nem a poeira.Ela odiava o Brasil quase tanto quanto ao marido, sempre conspirando para destroná-lo. Tramou ser coroada no vice-reinado do Rio da Prata (Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia), em conluio com o almirante Sydney Smith, um dos seus supostos amantes.
Na volta de D. João VI para Portugal, Pedro ficou como príncipe regente, solto na gandaia, encangado com o Chalaça. Escândalo atrás de escândalo, as Cortes exigiram seu regresso à Lisboa, então a princesa Leopoldina e José Bonifácio insuflaram o Dia do Fico… “para o bem da nção e felicidade geral do povo” causa do ultimato das Cortes, motivo da mitológico Grito do Ipiranga. Dom Pedro tinha transferido a regência para a mulher muito mais competente, responsável, e farreava para as bandas de São Paulo no momento histórico. Quem recebeu a intimação das Cortes e redigiu a carta da Independência foram Leopoldina e Bonifácio. Se tivesse obedecido às Cortes e ao pai, (como havia jurado) os movimentos separatistas rachariam as províncias brasileiras como ocorreu no resto da América do Sul.
A “inversão metropolitana” desenvolvera o Brasil em 13 anos muito mais que nos três séculos anteriores. A população do país atingia uns 4,5 milhões de habitantes. Cerca de 80% eram negros ou mestiços; escravos e braços de aluguel. O gentílico de brasileiro tinha conotação pejorativa e o retorno da família real consumava ideal lusitano de enriquecer e voltar à “santa terrinha”, deixando parentes no controle das propriedades aquém-mar.
No mês de abril de 1808, sua majestade “P.R.” lavrou o Alvará de Liberdade Industrial, permitindo a tecelagem, a manufatura de metais e de alimentos. A Inglaterra admitiu a concorrência mas era credora das despesas com a mudança da corte e estabeleceu a taxa de 16% sobre as mercadorias brasileiras. Os portugueses concordam que a “transmigração da corte” salvou o Brasil de um destino africano. Mas eu vejo a África nas favelas que colocaram o Brasil na 84º posição entre os 189 países analisados em termos de Desenvolvimento Humano. Caiu cinco posições em 2020.
As verdades sobre certos episódios e personagens mitificados por ufanismo desmoralizam a nossa história. É mais cômodo manter as farsas e aparências, condições que explicam a personalidade e o caráter do homem a quem devemos devemos o grito que rachou o Reino Unido de Portugal e Algarves em 7 de setembro de 1822, no episódio celebrado com a Independência do Brasil. Porém as vantagens da colonização e imperial português podem ser avaliadas numa comparação inquestionável.
O quinto presidente americano, James Monroe, iniciava o segundo mandato quando a família real chegou a Lisboa em 4 de julho de 1821, dia do 45o aniversário da Independência dos Estados Unidos, país que começou a se colonizado 120 anos depois da descoberta do Brasil. As Cortes Gerais Extraordinárias de Portugal hostilizavam do João VI por haver deixado aqui o filho Pedro de Alcântara como príncipe regente, apesar da promessa escrita e assinada pelo rapaz :
“… Juro a Vossa Majestade, escrevendo nesta com o meu sangue, estas seguintes palavras: juro ser sempre fiel a Vossa Majestade, à Nação Portuguesa e à Constituição Portuguesa“.
Dom Pedro de Bragança era herdeiro de dois impérios, sem a mínima intenção separatista. O rompimento lhe custaria no mínimo uma coroa. Pedro não era confiável, e Cortes Gerais temiam perder a mina que sustentava Portugal e a “alta linhagem do príncipe tornava sua permanência no Brasil indecorosa”. A menção ao decoro por ser aplicada à tara do regente de 22 anos por mulher de qualquer cor e condição. No Brasil os súditos se escandalizavam com suas safadezas e pouca honestidade. Mas a ausência dele rebaixaria o Brasil do status de Reino Unido a Portugal e Algarves.
A Igreja Católica avaliou os prejuízos no retrocesso à condição de colônia e aderiu à campanha da maçonaria, cujo grão-mestre do Grande Oriente do Brasil era José Bonifácio de Andrada e Silva, futuro Patriarca da Independência. Frei Francisco de Sampaio redigiu a petição e 8 000 súditos capazes de garatujar o próprio nome assinaram embaixo. Dom Pedro de Bragança recebeu o documento em 9 de janeiro de 1822, e a resposta foi publicada no Edital da Municipalidade do dia seguinte:
“Se é para o bem de todos e felicidade geral da Nação, estou pronto! Diga ao povo que fico”.
José Bonifácio servira por 36 anos à coroa, ocupando cargos importantes na metrópole. Era o administrador mais competente disponível e o príncipe lhe pediu que organizasse o ministério. As Cortes reagiram decretando um boicote comercial e dom Pedro suspendeu as taxas das importações de outros países. A província das Minas Gerais esboçou um levante, o príncipe foi a Juiz de Fora e os líderes se ajoelharam aos seus pés. Na chegada ao Rio, a maçonaria o declarou Defensor Perpétuo do Brasil. Em 14 de agosto, ele foi confirmar a lealdade dos paulistas. Houve uma farra em Santos e, no dia seguinte, dom Pedro partiu para São Paulo contorcendo-se nas cólicas. Os biógrafos são unânimes a respeito da diarreia e os historiadores cronométricos cravam as 16h 30m do sábado 7 de setembro de 1822 o recebimento do despacho do palácio, informando-o sobre as ordens recém chegadas de Lisboa.
O Rio de Janeiro perdia o foro de capital e os governos provinciais deveriam obedecer apenas às Cortes. O ministério fora extinto. Dom Pedro estava destituído da regência e do comando das tropas, devendo voltar via Espanha, França e Inglaterra, para educar-se à altura da sua nobreza. Os envolvidos na petição do “Fico” seriam processados. José Bonifácio era um deles e apresentou duas alternativas: dom Pedro obedecia às Cortes, submisso como o seu pai, ou libertava o Brasil. A carta da princesa Leopoldina resolveu dilema:
“Senhor, o pomo está maduro. Colhe-o já.”
José Ferreira de Castro ensina no seu Livro-Texto de História do Brasil (muito pirateado sem crédito) que o príncipe amarrotou as cartas com as mãos nervosas. Imagino o uso da correspondência naquele tempo em que sabugos de milho serviam como papel higiênico. E os higienistas didáticos o imaginaram galante após o “serviço”, montado num puro-sangue, ordenando à escolta que arrancasse da farda de gala a fita azul e branca das cores portuguesas:
“Laços fora, soldados. Independência ou morte seja a nossa divisa; verde e amarelo sejam as cores nacionais”.
O príncipe notabilizou-se como arrogante, autoritário, temperamental, grosso, e que se foda o resto. Se estivesse indignado o discurso nunca seria refinado como ensinam nas escolas. Com ou sem palavrão, a coisa aconteceu numa colina às margens do córrego Ipiranga, hoje na área metropolitana de SP. Daí o título do painel de Pedro Américo que celebrizou o Grito do Ipiranga. A pintura reconstitui a cena observada por um carreteiro de bois com chapéu paia, de camisa rasgada, descarço, as perna das carça enrolada. Os Dragões da Independência esporeiam seus corcéis no carrossel equestres em torno do moço montando num garanhão castanho, e ele espeta o céu da pátria com uma baita espada.
A diarreia é unanimidade histórica, mas a cena é falsa. Pedro Américo pintou o Grito 66 anos depois do episódio, em Florença, na Itália, por encomenda de Dom Pedro II, para colorir a reputação pai. Segundo o professor Ferreira da Costa, o príncipe viajava numa mula, e, nos termos termos simples do carreteiro caipira, dom Pedro I acabava de cagar no mato.
Fica deselegante espiar um príncipe fazendo cocô, e quem já sentiu “necessidade” durante uma cavalgada sabe que a tropa se adianta. Havia engenhos na redondeza e faz sentido que, enquanto esperava, a comitiva comentasse o piriri de sua alteza, lavando a goela com cachaça. A realidade contribui para a baixa estima nacional, o deboche muito repetido sobre “esse país de merda”. A história imperial brasileira foi pouco higiênica, e muito servil, contribuindo para o trocadilho infame da “América latrina”. E a independência improvisada atrás da moita se consuma na ameaça autoritária de um tal de Jair que tem a cabeça monárquica, a vocação autoritária, é um tremendo porra-louca e só falta se chamar Pedro .
O império recém proclamado precisava ser reconhecido, mas a Doutrina a Monroe das “Américas para os americanos” era conversa para inglês ver. O governo dos Estados Unidos só reconheceria a independência brasileira em maio de 1824. A Inglaterra, por sua vez, exigiu a restauração dos seus privilégios comerciais concedidos por dom João VI na Abertura dos Portos, e impôs tribunais exclusivos para os ingleses no Brasil, com juízes subordinados apenas às cortes de George IV. O embaixador britânico Charles Stuart negociou os onze parágrafos do Tratado de Paz e Aliança, assinado em 29 de agosto de 1825, pelo qual…
“Em nome da Santíssima e Indivisível Trindade”:
“I) Sua majestade fidelíssima (dom João VI) reconhece o Brasil na Categoria de Império Independente, e separado dos reinos de Portugal e Algarves, e o seu sobre todos muito amado e prezado filho, dom Pedro, por Imperador, cedendo e transferindo de sua livre vontade a soberania do dito Império ao mesmo seu filho, e a seus legítimos sucessores, sua majestade fidelíssima toma somente e reserva para sua pessoa o mesmo título”
“II) Sua majestade imperial (Pedro I) em reconhecimento e amor ao seu augusto pai, o senhor dom João VI, anui a que sua majestade fidelíssima tome para sua pessoa o título de imperador”.
Pois pois, dom João VI continuava legalmente a reinar sobre o Brasil. Além da raridade de um império com dois imperadores, o negócio de pai para filho obrigava o falido tesouro brasileiro a indenizar Portugal no valor de $ 2 000 000 de libras esterlinas. Quem falou em assalto, lorde Cochrane? A independência do Brasil foi emprestada, vendida, comprada e alugada. Os outros oito parágrafos do acordo prometiam perdão recíproco e amizade eterna, definindo pendências sobre propriedades e regras mercantis. Lisboa foi imposta como foro legal e os portugueses continuaram dominando a economia agrícola, o comércio e tudo mais o que justifica a alcunha do Gigante Adormecido.
João VI morreu em 10 de março de 1826, supostamente envenenado por laranjas injetas com arsênico. Pedro I herdou a coroa portuguesa pelo tempo suficiente para outorgar uma Carta Constitucional e abdicar e favor da filha de sete anos:
Maria da Glória Joana Carlota Leopoldina da Cruz Francisca Xavier de Paula Isidora Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança, aliás Maria II, rainha de Portugal, era carioca, nascida no bairro de São Cristóvão. Os absolutistas e a Igreja Católica, partidários de dom Miguel e Carlota Joaquina, negavam o direito de Pedro I em Portugal devido ao rompimento na Independência do Brasil. A irmã dele, Isabel Maria de Bragança, assumiu a regência num acordo para pacificar liberais e absolutistas até o matrimônio da carioca Maria da Glória com o próprio tio. O acordo durou até dom Miguel usurpar o trono em julho de 1828, num complô com a mãe e madrasta de Portugal, Carlota Joaquina.
Em 7 de abril de 1831, Pedro I abdicou ao trono do Brasil em favor do filho de cinco anos, Pedro II, e foi entronizar a filha em Portugal. Na passagem pelos Açores engravidou Ana Augusta Toste, freira do Convento da Esperança, na Ilha Terceira, desvirginado, ainda, a noviça negra Andressa dos Santos. Desembarcou no Porto, venceu o irmão após dois anos de lutas, mas as farras e a guerra lhe custaram a saúde. Pedro IV morreu tuberculoso aos 35 anos, no Palácio de Queluz, na mesma câmara onde nascera, o quarto do Quixote.
Os portugueses o culpam pela perda da colônia e os brasileiros se dividem a sobre o caráter do imperador, mas não lhe podem negar a integridade territorial do Brasil. Pedro I impediu o desmembramento do império como os domínios espanhóis nas Américas. A Amazônia, o Planalto Central, o Pantanal, o cerrado, a caatinga, as serras, o clima, a língua, a mistura de raças e a raça dessa mistura são o verdadeiro milagre brasileiro. Mas, acima da preguiça cívica, da apatia política, do descaso social, do deixa pra lá com a própria história, os herdeiros do Reino Unido a Portugal e Algarves devem a Pedro I uma República Federativa de proporções continentais. E ele, que país preferia?
Na festa dos 150 anos da Independência do Brasil, eu cobri a exumação dos restos do imperador doados pelo Governo Português para guarda definitiva na cripta do Monumento do Ipiranga, em São Paulo. O esqueleto estava em Lisboa, no Panteão dos Bragança, no mosteiro de São Vicente de Fora. Nesse périplo mórbido, fui à cidade do Porto onde ele deixou seu coração. Não o músculo cardíaco do rei, mas o que batia no peito do general que venceu o irmão usurpador, dom Miguel, para coroar a filha, dona Maria II. Ele nem imaginava que o filho Pedro II abdicaria do trono brasileiro.
Pedro de Alcântara Francisco Antônio João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon quis se dividir entre O Porto e Lisboa, na eternidade comprida como seu nome. Na época em que lhe abriram o peito, o coração era o sacrário da alma. O traslado dos ossos para o Brasil separou a matéria da substância em dois hemisférios. Mas a cânfora da história preserva a paixão que une os reinos Pedro IV e Pedro I, com um oceano de saudades no meio, porque navegar é…
O ex-presidente Jânio Quadros, foto de autor não identificado.
Quem precisa de sigla para as próximas eleições é bem-vindo ao PP-L, o partido póstumo do ex-presidente Jânio da Silva Quadros, modelo bizarro que inspira o atual pomba–lesa sem partido aquartelado no Palácio do Planalto. Jânio Quadros notabilizou-se na História do Brasil pelo fracasso do golpe que engendrou para assumir poderes ultra-bolsonários.
A estratégia de forçar a ruptura institucional e envolver as Forças Armadas é peculiar até pela escolha das datas: Jair Bolsona arma a espoleta do seu golpe para o próximo 7 de Setembro, Dia da Independência, assim como Jânio tentou detonar a legalidade institucional no Dia do Soldado, há exatos 60 anos, através deste bilhete endereçado ao Congresso, certo de que povo exigiria sua volta ao governo, dando-lhe plenos poderes: “Ao Congresso Nacional. Nesta data, e por este instrumento, deixando com o Ministro da Justiça, as razões de meu ato, renuncio ao mandato de Presidente da República. Brasília, 25.8.61.”
Foto de Erno Schneider – Ponte da Amizade em 04/ 61 Ag. Senado – Fair copyright
O Congresso deu uma rasteira em Jânio, o que não era difícil julgar pela foto ao lado, e as minhas bolas de cristal mostram que Jair Bolsonaro corre o mesmo risco. Há, diferenças acumuladas pelo tempo, como a manipulação “terrívelmente evangélica” da política e novas cuecas para enfurnar a propina camuflada nos fundos parlamentares. O Centrão (que nome!) diz que não há nádegas a declarar, porém aprovou R$ 937 milhões de fundo partidário, mais R$ 5,7 bilhões de fundo eleitoral para a rachadinha entre os 23 partidos credenciados às fatias do bolo. Há outros 10 partidos sem o mínimo de votos e falta uma legenda para hospedar a recandidatura de Jair Bolsonaro. Daí a oferta do aglutinador PP-L, o Partido dos Porra-Loucas, sigla que já vem com a rachadinha do ífem para facilitar os negócios da famiglia.
Este assunto se inflamará nas próximas duas semanas, mas como está difícil de aturar o ranço político, historileaksbrasil.home.blog recapitula aspectos pitorescos da lambança golpista de Jânio. Trata-se do extrato de capítulo do meu livro O Complexo de Cuba, cuja publicação na @WordPress.com eu interrompi temporariamente para engajar do site na campanha de conscientização contra o Covid-19. A história é comprida, mas dá tempo de ler até o 7 de setembro. Depois a gente vê o que acontece:
Capítulo 46 – O mistério da pistola
Jânio da Silva Quadros era vesgo, míope, magro, de cabeleira poética, bigode patético e um vocabulário esdrúxulo. Havia sido professor de gramática. Esbanjava próclises, ênclises, mesóclises e apossínclises. Tomava cachaça por ser líquida, pois se fora sólida comê-la-ia. Na única vez em que o entrevistei (às nove horas da manhã) seu bafo de ressaca ter-me-ia derrubado, não fora eu apoiar-me num aparador de repórteres na casa do ex-deputado José Aparecido.
Na campanha presidencial, Jânio Quadros viajou para apresentar-se com estadista à comunidade latino americana. Apesar das suspeitas dos Estados Unidos, a Revolução Cubana empolgava o mundo e o embaixador Leitão da Cunha, decano do corpo diplomático em Havana, promoveu o encontro entre Jânio e Fidel. Uma fotografia do evento mostra Castro e a embaixatriz a sós, olhos nos olhos, tão enlevados que ruborizavam as rosas do jardim. Ela pousa no busto sua mão esquerda, sustentando um suspiro no decote. A mão direita apalpa o bíceps do comandante rebelde.
Jânio e Castro em Havana e o tête-à-tête na embaixada entre a embaixatriz Virgínia Leitão da Cunha e “el lider máximo”
O banquete terminou com um pequeno escândalo: a pistola do herói sumiu! Sem malícia. A nossa bela embaixatriz não teve nada a ver com o desaparecimento do pau de fogo revolucionário. O secretário-de-redação do velho Jornal do Brasil, José Silveira, cobria a viagem de Jânio na comitiva de imprensa e, conversando sobre Cuba, ele comentou que a pistola apareceu após um sermão do embaixador ao grupo de jornalistas.
José Silveira, de saudosa memória, me disse que quem desarmou Fidel Castro sem dar um tiro (coisa que os Estados Unidos não conseguiram) foi o escritor (na época repórter) Fernando Sabino, autor de O Grande Mentecapto. O encontro entre Jânio e Fidel repercutiria na história no Brasil porque naquela recepção Castro vangloriou-se do povo exigir que ele assumisse plenos poderes sua renúncia ao cargo de primeiro ministro. O movimento vitorioso havia empossado na presidência provisória o decano do judiciário Manuel Urrutia LLeó, para agilizar o reconhecimento da Revolução pelos Estados Unidos.
Quando o juiz presidente começou a condenar os fuzilamentos dos tribunais revolucionário no paredón, Fidel Castro sumiu. Criou um suspense sobre seu paradeiro e reapareceu no auge de comoção para incitar o povo contra o “traidor da pátria”. O linchamento institucional dee Urrutia Lleó ocorreu no sétimo mês de mandato, logo após ele ter marcado novas eleições.
Jânio condecora o Che e sela o seu futuro político. Foto histormundi. blogspot.com
A influência da manobra de Castro na tentativa golpista de Jânio é evidente no envio do vice João Goulart para a China às vésperas da renúncia bisonha, por um bilhetinho pitoresco. O afastamento de Jango impediria a passagem do cargo ao sucessor constitucional, dando tempo para a comoção popular exigir a volta de Jânio ao poder. O nosso “homem da vassoura” suicidou-se institucionalmente na terça-feira 25 de agosto de 1961, uma semana depois de condecorar Guevara com a Ordem Naciional do Cruzeiro do Sul. Ele era ministro do exterior cubano, vinha de uma reunião da OEA em Punta del Leste e seu encontro “secreto” com o presidente Arturo Frondizi provocara um motim nas Forças Armadas da Argentina.
“Onde está o povo? Onde está o povo para me apoiar?”
Os berros de Quadros no desembarque em São Paulo, vindo de Brasília insinuam que Castro só revelara o pulo, escondendo o gato. Ele havia instigado os cubanos contra “o traidor da Revolução”. Personificou o inimigo, induzindo a escolha entre ele, o guerrilheiro mitológico da Sierra Maestra, e o magistrado sem nenhum carisma. Jânio Quadros, por sua vez, plagiou Getúlio Vargas: atribuiu a própria desgraça política às “forças ocultas,” entidade confusa como seu governo através de bilhetes.As forças ocultas eram claras:
Jânio estava na lista negra da CIA desde o veto do Brasil à proposta dos Estados Unidos de expulsar Cuba da Organização dos Estados Americanos. A condecoração do Che com a Grã Cruz da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul a maioria conservadora e a pressão das forças (aí sim) políticas, econômicas e armadas levaram o Congresso legitimar o blefe como renúncia. Jânio enviara o vice João Goulart para a China, de modo a impedi-lo de assumir o governo… o que só ocorreu devido à Campanha da Legalidade, liderada por Leonel Brizola, cunhado e governador do Rio Grande do Sul. Porém as reformas nacionalistas do governo Jango precipitariam o golpe de 1964, e 20 anos de ditadura militar, “A Redentora!”
O brigado Cazo, desculpe a pirataria, mas é por uma casa justa. Imagem jeonline.com.br
O ensaio golpista de Bolsonaro recapitula a estratégia de Jânio como piada de mau gosto. As circunstâncias mudaram, os meios evoluíram a partir da substituição dos bilhetes por “lives”, postagens de fake news, ameaças, mentiras, chantagens, suborno parlamentar e doutrinação eletrônica. A influência conservadora da Igreja Católica foi substituída pela mobilização “terrívelmente evangélica.”
Os pastores são cabos eleitorais, as passeatas e carreatas viraram uma coisa de motocicleta sem nome ainda, que lembra os hells angels. Enfim, Jair Messias Bolsonaro deve evitar o erro de Jânio Quadros, e, com ou sem golpe, precisa de uma legenda para faturar as generosas verbas eleitorais. Partido dos Porra-Loucas aceita adesões, dependendo é lógico da bufunfa enfurnada na cueca.
O craque de Nazaré – Lápis e aquarela sobre papel – HBy/87
Patriotas verdes e nacionalistas amarelos dizem que Deus é brasileiro. O polonês Karol Jósef Wojtyla, aliás João Paulo II, foi além: “Se Deus é brasileiro o papa é carioca”. Então, até Nosso Senhor roeu suas unhas divinas na final da Copa do Mundo de 1994, entre os tri campeões Brasil e Itália.O jogo no Estádio Rose Bowl, em Los Angeles, valia o tetra campeonato para ambos e os italianos apelaram para San Genaro, San Giovanni, San Francesco, tutti i santi; até para a Madonna, cujo filho bateu um bolão em Nazaré.
No Brasil-ziu-ziu rolou promessa para São Judas Tadeu, figa de guiné, praga de mãe, feitiço, mandinga,mau-olhado, macumba, bruxaria, ebó, quebranto, coisa feita, olho gordo, defumador, ziquizira, velas, vodu, padê, amuleto, patuá,banho de cheiro, pajelança, marafo, charuto, galinha preta, arruda, incenso, cabeça de bode, gira de nega veia, aruê, obrigação, enguiço, sapo enterrado, oferendas para os orixás, garrafada, pito, guias, fumo de rolo, frutas e flores nos despachos das cachoeiras e encruzilhadas. Mas se reza forte fizesse gol, êh-êh zinfi, bastava amarrar as chuteiras com fitinhas do Senhor do Bonfim.
Zero a zero! Não houve santo que mudasse o marcador no tempo normal, nem na prorrogação: 120 minutos de olhos arregalados e coração no pé… pé de cana; claro. Meio mundo encheu a caveira naquela tarde de domingo, 17 de julho de 1994. O “esquadrão de ouro” não dava no couro há 24 anos – castigo pelo desleixo da Confederação Brasileira de Futebol no roubo e fundição da Taça Jules Rimet, 11 anos antes. Além do mais, o Brasil era o único país que disputara todos os quinze mundiais de futebol a aquele era o primeiro decidido nos pênaltis.
Franco Baresi, o capitão da squadra azzurra, tinha consciência do chute histórico e tratou a bola como se pousasse o globo terrestre na marca de cal. O suspense da popular penalidade máxima congelava o chope nas veias da torcida que entupia o Garota de Ipanema. Não mais que de repente, um sofredor perdeu a coragem e, ao virar sua cadeira de costas para a tevê, esbarrou na pessoa mais importante da festa… ou velório?
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O garçom segurou a louça, mas uma caneca caiu da bandeja e ele se encolheu atrás da gravata borboleta, franzindo uma cara de quem atura muitos bêbados por pouca gorjeta. A caneca bateu com o fundo de vidro grosso no piso de cerâmica, tóinnn, e o bar que estava rouco ficou oco. Zero decibel. As azeitonas arregalaram os seus olhos verdes. As louras batatas fritas empalideceram. As caipirinhas suaram guaraná.
A caneca quicou outra vez, tóinnn, e quem ainda tinha ar prendeu o fôlego. Baresi soltava a musculatura das pernas dando pequenos chute no vento, enquanto o árbitro húngaro Sándor Puhl prolongava a agonia do juízo final. Acho que desfrutava o suspense das multidões ansiosas pelo seu apito. Aí a caneca se estilhaçou e todos a aplaudiram, rompendo o silêncio nervoso com o fino do humor carioca. O pessoal incorporou o espírito da Cidade Maravilhosa, cheia de encantos mil, berço do samba e das lindas canções, coração do meu Brasil.
O Veloso, na antiga Montenegro, 49. Foto anônima e cheia de graça
Nem Tom Jobim, o maestro com cadeira cativa sob a sua partitura famosa, regeria melhor a transição da zorra para o silêncio, os quiques da caneca e os aplausos para seus cacos. Vinícius de Moraes, outro “sócio” do bar desde quando o Garota se chamava Veloso, fora premonitório: “A felicidade é como a pluma que o vento vai levando pelo ar.” Baresi isolou a bola sobre o travessão de Taffarel, os tiffosi da azzurra arderam no Inferno de Dante e a galera ensandeceu até o locutor ilustrar a imagem do zagueiro Márcio Santos a caminho da “nossa” primeira cobrança, levando “o Brasil inteiro no pé direito… haja coração.”Outro silêncio impregnado de medo e o cardiologista esportivo continuou:
“…Os jogadores todos de mãos dadas. Marcio Santos partiu, bateu… pegou Pagliuca! Peeegou Pagliuca. Eu, se sou técnico, boto logo o meu especialista para fazer um a zero.” Alguém reclamou que, em vez de narrar o jogo, o locutor filosofava sobre as jogadas e ra própria biografia profissional. Enquanto isso, Albertini beijou a bola, bateu sem tomar distância, e o goleiro Taffarel, não saiu nem na fotografia, caído junto à trave esquerda. O cardiolocutor censurou: “Quis adivinhar o canto. Adivinhar o canto é difícil. Defendo sempre a tese de que o goleiro tem que ficar parado, esperar a cobrança e pegar o pênalti mal batido”. O comentarista Pelé não se manifestou e o locutor continuou:
“Rrrrrromário vai pra a cobrança. Ele e Pagliuca. Beija também a bola, a exemplo do que fez Albertini. Momento de angústia. Partiu Rrrrrromário, pé direito, bateu… É GOU…É GOOOOOOU. GOU DO BRASIUUUU… É DO BRASIUUUUUU” – narrou, ao vivo, em cores, o discreto locutor, acrescentando a informação mais original da 15ª Copa: “Quem sabe sabe, quem conhece conhece. Pelé, aqui a meu lado disse, que teve paradinha!”
A torcida explodiu como uma erupção do Vesúvio. Dois pênaltis e um gol para ambos os times. As unhas brasileiros, as italianas e as celestiais já estavam no sabugo quando Evani ajeitou a bola… “Ele e tafarell. Não toma muita distância. Autoriza o juiz. Sai que é suuuuua Tafarell… Bateu no meio do gol! Prá que se mexer.! É aquilo que eu digo. Quer adivinhar o canto. A bola foi batida rigorosamente no meeeio do gol. É o que eu sempre falo do Goicochea, goleiro Argentino. Ele não sai. Pega os mal batidos.”
Ué, narro eu. Carlos Alberto Parreiro e Jorge Lobo Zagalo treinavam a seleção, mas foi o porta voz dos 160 milhões de técnicos brasileiros quem mandou: “vai que é suuuuua, Taffarel.” O goleiro foi e mereceu e outra bronca, em cores, ao vivo! Itália dois, Brasil um. E ele prosseguiu:
“Lá vai Branco. Vai partir a bomba na perna esquerda. Partiu Branco, é gou, é gou, é gou, é goooooouuuu! É gou do Brasil. É gou de Branco. Quem sabe sabe, e conhece” – enfatizou o locutor. Seria legal ouvi-lo narrar a euforia dos pastéis, o alívio das empadinhas, coadjuvantes da caneca malabarista. A galera hipnotizada pela televisão explodiu quando Taffarel defendeu a cobrança de Massaro e foi canonizado no ato: “Grande Taffarel, Grande Taffarel. Caiu na hora certa, no momento exato…” justamente porque não esperou o chute no meio do gol, como queria o catedrático dos palpites.
A Itália perdera duas de quatro cobranças. Dunga tinha feito o terceiro gol brasileiro. O craque Roberto Baggio, a quem os fãs chamavam de O Divino, precisava de marcar o último pênalti da série italiana, torcendo para Pagliuca defender o quinto chute brasileiro e mandar a decisão para o gol de ouro. Segundo Neném Prancha, filósofo do futebol, “Pênalti é uma coisa tão importante que deveria ser batido pelo presidente do clube.” Porém a autoridade máxima neste mundo redondo, o próprio inventor da bola, roía as unhas na eternidade, no dilema entre a devoção italiana e ser brasileiro.
Taffarel agradece ao céu e “O Divino” Baggio lamenta ter devolvido a copa que tomara do Brasil 12 anos antes. Foto Daily Telegraph
Baggio era Budista mas o técnico Arrigo Sacchi não o escalou como último dos cinco batedores italianos pelo fator Zen. O mais provável foi a carga psicológica dele ter eliminado o Brasil com três gols na Copa de 1982, em Barcelona. Futebol é mais passional do que briga de marido e mulher e Carrasco de Sarriá tinha a vantagem moral de haver dado o tri para a Itália. Ele bateu na bola de pé direito, e ela, vingativa, levitou sobre a trave de Taffarel. O Brasil conquistava o ‘TÉEEETRA,” a Itália chorou fel e Ipanema, capital da Bossa Nova, continuou cheia de graça, ao sol, de cuca fresca, tanga de croché e fio dental.
Tantos anos depois, a pandemia Covid-19 confinou o humor carioca. Todavia, os últimos seis governadores do Rio de Janeiro presos ou afastados por corrupção tinham sido piores. O exemplo e mau-caráter contaminou o serviço público. Marginais oficiais lotearam o Legislativo, o Judiciário, a Segurança, a Educação e a Saúde. A impunidade viabilizou o controle das milícias que exploram o vácuo do Estado, cuja reforma social mais evidente nos últimos tempos foi trocar o nome de favela por comunidade. O tráfico de drogas se apropriou da cultura, impondo o pancadão na cidade que se distinguia pelo bom gosto, a classe das porta-bandeira, o requinte dos mestre-sala, espelho cultural do país, berço da Bossa Nova. Se as rosas falassem diriam que o funk está para o samba assim como o deboche está para o humor carioca.
O barquinho vai, a tardinha cai e eu fui! Foto HBy
Tchau, Rio. Parti para outra praia, mas sempre volto aonde deixei a juventude e trouxe as saudades. O vírus mascarou a minha peregrinação mais recente, tirando a graça de aplaudir o sol poente lá da Pedra o Arpoador. Então subi a Vieira Souto, margeando a praia. Sob o meu chapéu iam as memórias de pessoas e episódios que insistem em nos acompanhar mesmo quando se foram para muito, muito além do por do sol. O tempo me esqueceu aqui, por enquanto, e eu só queria uma caipirinha de limão, coada, com pouco açúcar e muito afeto.
Caminhei pela tarde vazia rumo ao bar na esquina de Moraes com Morais, Vinícius e Prudente, um trovador e um presidente, então o meu espanto foi melancólico como bruma na tarde fria. O bar que sempre foi notável pela animação estava abandonado. Sem viva alma além do garçom, atrás da sua gravatinha borboleta. Ele segurava o cardápio na porta, triste chamariz de uma época que também veio, foi e não volta mais. Passei direto, sem coragem de enfrentar os fantasmas abandonados.
José, o garção de um freguês só
No meio do quarteirão, entre Prudente de Moraes e Visconde de Pirajá, me senti péssimo, vazio como o Garota. Voltei. O garçom fingiu não perceber o meu embaraço e lhe pedi uma caipirinha. Nada de comida. Nem ninguém para conversar. A única intimidade no ambiente era a minha caderneta de capa azul, velha amiga de fé, a quem confesso as bobagens que me ocorrem.
Vasculhei ideias vadias e o som do copo pousado pelo garçom no tampo de mármore da mesa fez tóiinn. O tempo estava na marca do pênalti. O caneco do tri, do tetra e do penta já eram nossos, e quando eu reparei na garota propaganda do bar impressa na toalha de papela tive vontade de berrar como um Bueno desmamado: É CANEÉÉÉCA, É CANÉÉÉCA, É CANÉÉÉCAAA… uma linda e loura caneca de chopp como aquela que se estilhaçou no tempo da carioquíssima felicidade.
Aí, na falta da torcida, confraternizei até com o pano de chão. Pedi ao seu José para fotografá-lo, de colete vermelho, camisa branca e gravata borboleta. Puxei assunto e acho que ele quis me animar, afinal todo garçom é um terapeuta da solidão. Talvez tenha percebido que eu voltara penalizado pelo abandono do bar, ruminando a tristeza que já não é só minha, que também passa sozinha...
A chama que uniu a humanidade no pandemônio da Covid agora ilumina as lembranças do Japão, aonde eu, menino pensava chegar cavando um buraco bem fundo na areia. Voar é mais fácil e perdi a ingenuidade a jato. No fim de uma longa curva no rumo Leste sobre o Oceano Pacífico, vi o sol, escarlate como um tomate, no céu de cetim, tela do Fujiyama.Hoje, toco no screen e tenho o vulcão sagrado na palma da mão. Volto ao império samurai e me inclino diante da sua dignidade ao honrar os aros entrelaçados que simbolizam aliança e jogo limpo entre os povos dos cinco continentes: Azul (Europa), amarelo (Ásia), preto (África), verde (Oceania) e vermelho (Americas). São os anéis dos dedos do mundo.
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O Japão desafiou o vírus fatal para unir 205 países mais uma equipe de refugiados na 32ª Olimpíada da era moderna. Domo arigatô, Nippon. Aceite a minha saudade como tributo ao esforço, eficiência, dignidade e arte na realização dos jogos. Banzai: “vida longa” ao exemplo que continuará nas Paraolimpíadas. Em outro grande trauma global, a crise de energia de 1973, o Jornal do Brasil me mandou cobrir os efeitos do boicote árabe ao fornecimento de petróleo e o quintal da minha infância virou a estação Shimbashi, onde Policiais com luvas brancas comprimiam as pessoas para o interior dos vagões do metrô como quem força mais roupas numa mala já cheia.
Fiz conexões aleatórias pensando em escrever sobre a volta ao jornal, partindo de onde eu não nem conhecia nada e ninguém. O lugar mais distante e estranho que eu já estivera. O vento cinzento do outono me soprou até a vitrine de um cardápio bilíngue de “comida venenosa”. Resolvi me envenenar com saquê. O sininho da sorte tilintou e deixei os sapatos no vestíbulo do ambiente colorido por lanternas de papel.
Tsuru, a ave venerável
Os clientes sentados no tatame, em torno de mesas baixas, pescavam a comida com pausinhos, como as garças mariscam na água rasa. Quem come com bico tem a essência de ave, como o Tsuru, símbolo da fortuna, vida longa e felicidade. Pedi saquê e mostrei a minha Nikon ao sushiman que autopsiava um baiacu, numa mímica de permissão para fotografar. Ele apontou o cardápio ilustrado e um cliente coreano que acompanhava a cena traduziu a minha intenção
O velho que meditava sentado sob o altar de um buda rechonchudo despertou do transe e disse algo. O tradutor, Mr. Wu Shao Pai, sul coreano, informou que Shimizo San, dono do Sharaku, perguntava por um “sobrinho com frutas” no Mercado Público de São Paulo. Pedi desculpas por não conhecer a todos na colônia japonesa de SP, mas as fotos foram permitidas. Depois de vários filmes, Shimizo San ordenou a cágada culinária.
O sushiman Watanabe e o cágado decapitado – foto HBy
O sushiman caçou o bicho numa caixa com serragem e colocou-o de costas na prancha. Ao contrário das tartarugas, que retraem a cabeça como um carro entra na garagem, os cágados as encaixam nas laterais dos cascos. Era um cágado de água doce, a criatura mais tímida do oriente. O sushiman esticou-lhe o pescoço e tsluch, com o cutelo. A cabeça decepada abria a boca num pires, com os olhinhos atônitos, enquanto o sangue esguichava num pote de cerâmica.
O pote de Shimiso San
Shimizo San me entregou o pote, inclinando-se com a dignidade dos carvalhos, e o coreano sussurrou que a homenagem era irrecusável. Sangue de cágado é desbotado, com coágulos brancos, mas bebi aquela gosma. Depois a garçonete me entregou o pote embrulhado num lenço de seda, gratidão de Shimizo San pela hospitalidade brasileira ao seu “sobrinho com frutas”.Ele queria saber quem me indicara o Sharaku. Expliquei que havia me perdido de propósito para escrever sobre como encontraria o caminho de casa, lá no outro lado do mundo, no fundo do buraco que cavara no quintal quando era menino, e fora atraído pela placa de comida venenosa.
– Tira veneno, senão mata cliente, né?
A garçonete somou a despesa numa calculadora e Shimizo San conferiu a conta num ábaco. O sangue do cágado foi gratuito e a conferência da operação eletrônica na tabuada secular explica a convivência entre a tradição e tecnologia no país onde o ritual do chá é mais complicado que uma placa mãe.
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O tradutor coreano perguntou aonde eu me hospedava. Respondi que me desfizera do mapa de propósito, sabendo apenas o nome do hotel. Mr. Wu Shao Pai sorriu redondo como um sushi e me levou até a porta para apontar o reflexo verde do letreiro do Dai-Ishi, três quarteirões adiante.Caminhei na neblina, entre origamis de sombras, sorrindo da incompetência em não conseguir me perder na megalópole samurai.
Sayonara, Fujiyama! Segui o Sol no regresso ao ocidente, chegando a Los Angeles na data anterior à partida do Japão. Desentortei o fuso horário ao som dos Beatles. A banda havia rompido. John Lennon proclamava o fim do sonho, mas o meu sleeping bag era azul, com forro de cetim dourado. E quando os cantores dos cinco anéis do entoaram Imagine na cerimônia de abertura da Olimpíada de Tokyo, a paz de John Lennon e Yoko Ono me envolveu, então abracei a todos os povos do mundo. A cerimônia do encerramento foi ainda mais comovente. Acho que vou cavar outro buraco no quintal.
Chico Rodrigues, vice líder do governo no Senado, flagrado com a propina na popa. Charge de Clayto para o Portal Mais Castanha. –
Procura-se um palavrão em português, ou qualquer outra língua suja como a do presidente da nossa república mal falada e pouco lida. O novo vocábulo elogiará aos 287 deputados e 40 senadores que triplicaram o Fundo Eleitoral/2022, na calada da noite mais imoral deste anus ignoblis no Congresso Nacional.
Segundo o porta voz popular Francisco Buarque de Holanda, “Dormia, a nossa pátria mãe tão distraída, sem perceber que era subtraída, emtenebrosas transações“, como os R$ 5,7 bilhões aprovados para rachadinha eleitoral de 2022. “Vai passar”, não Chico, o rombo de R$ 702,9 bilhões nas contas do setor público já passou; aumento recorde de 1.036% no déficit primário do ano passado. Inclua a grana para eleger quem nos roubará na próxima legislatura ao déficit fiscal de R$ 177,5 bilhões previstos para este ano, e comemore o pior resultado da série histórica do Banco Central.
Nessa “página infeliz da nossa história”, o Congresso Nacional triplicou a verba para financiar profissionais da política que se perpetuam nos plenários com a grana dos otários que trocam seus votos para um dentadura para rir da própria desgraça. Uns 40 milhões de desempregados “erravam cegos pelo continente, levavam pedras feito penitentes,” implorando pelo auxílio emergencial, enquanto a nova geração dos anões do orçamento planejavam suas reeleições com os R$ 48,8 bilhões das emendas eleitorais que racharam neste ano.
O Congresso Nacional, passarela dos anões do orçamento
“Ai que vida boa, olerê… ai que vida boa, olará,” os pigmeus do Eixo Monumental apressaram a aprovação da Lei das Diretrizes Orçamentárias para permitir o recesso do nobre Congresso e sabotar a Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia. Eles apostaram na ansiedade do presidente para desviar as suspeitas de prevaricação nas negociatas da vacina Covaxin. O dinheiro para os candidatos à reeleição confirma em prosa e verso as acusações ao presidente Jair M. Bolsonaro sobre as fraudes nas urnas eletrônicas. Quem o elegeu foi vítima de estelionato eleitoral, neste país onde promessa política é “passagem desbotada na memória:”
Na véspera das sua eleição sem o voto impresso, portanto “fraudulenta”, o candidato Bolsonaro declarou: “Nós temos tudo para ganhar no primeiro turno e ganharíamos três semanas para montar um ministério enxuto, com no máximo 15 ministros, que possa representar os interesses da população, não de partidos”. Dito e não feito, ele nomeou 22 ministros. Em junho de 2020, negociou com o Centrão a volta do Ministério das Comunicações, continua mentindo sobre as urnas que pretende fraudar e minimiza a compra de votos parlamentares através da distribuição de ministérios:
“Algumas coisas nós exageramos, né. Num país continental como esse, a gente queria 15 ministérios. Montamos um número, depois chegou a 22. E o orçamento em si não tem muita despesa a mais, sendo criado ou não mais um ministério.
“Extra… Extra! A memória do presidente desbotou. Ele acaba de criar o 23º ministério, o MEP, Ministério do Emprego e Previdência (MEP). O caixeiro desse novo balcão de barganhas será Onix Lorenzano, secretário geral da Presidência. O careca com nome de minério será substituído por um velho freguês da Polícia Federal, o senador piauiense Ciro Nogueira, presidente do Partido Progressista, articulador do Centrão, o bloco majoritário que sustenta o governo.
Ciro Nogueira responde a três inquéritos que hibernam no Supremo Tribunal Federal, entre eles a acusação de embolsonar R$ 7,3 milhões da Odebrecht. Outro é sobre o suborno pelo Grupo J&F para viabilizar o impeachment da presidente Dilma Rousseff. A Polícia Federal aguarda a liberação inquéritos para prosseguir nas investigações e encaminha-las à Procuradoria da República, no dia em que nevar em Teresina, PI. A sua nomeação para secretaria geral da presidência libera seu titular na CPI da Pandemia, e eu aposto R$ 5,7 bilhões que, oportunamente, ele será substituído pelo senador Flávio rachadinha Bolsonaro.
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Não confunda fundo eleitoral com o fundo partidário, que são mais R$ 937 milhões para a rachadinha entre os 23 partidos credenciados às fatias do bolo. Há outros 10 partidos sem o mínimo de votos indispensáveis para embolsonar o Fundo Partidário e o tempo de propaganda gratuita no rádio e na TV. Esses partidos nanicos congregam os pigmeus do Eixo Monumental nas legendas de aluguel, satélites do “Centrão”, empenhados na briga de foice por cargos e comissões.
Os filiados à base do governo mudam de bancada conforme as ofertas do Palácio do Planaltos. Alguns compartilham a propina oficial, legal, imoral, em bancadas folclóricas folclóricas como a bancada da bola. Outras são perigosas, tipo a bancada da bala. No conjunto, formam a bancada bolada… o bloco do carnaval político, com suas máscaras descaradas. Enfim, um palavrão adequado ao discurso presidencial seria sujo como pukxtraquiteprevaribolzoguiu-vos. O rótulo sujo é aplicável aos 287 deputados e 40 senadores que triplicaram o Fundo Eleitoral/2022 e preparam novo remendo no Código Eleitoral para facilitar roubos e garantir a impunidade. Enquanto isso, os brasileiros choram 569 901 mortos pela “gripezinha” ridicularizada pelo presidente boca suja que recusa a a própria vacinação, estimulando um provável recrudescimento da pandemia com o vírus replicante nos países que se julgavam imunizados.
A Câmara dos Deputados elabora novas regras no meio do jogo para “flexibilizar” o uso da verba do fundo partidário, impedir a divulgação de pesquisas na véspera da eleição e encurtar o prazo para a Justiça Eleitoral analisar as contas partidárias. O texto protocolado no dia dois de agosto/21propõe a mudança da Lei dos Partidos, a Lei das Eleições, o Código Eleitoral e da Lei da Inelegibilidade para as próximas eleições. O projeto precisa ser aprovado até outubro próximo por 257 deputados, 30 menos dos que triplicaram o Fundo Eleitoral.
E o presidente da República, Jair M. Bolsonaro, insiste na ameaça de impedir as eleições de 2022 se o Tribunal Superior Eleitoral não mudar a apuração dos votos de acordo com o seu interesse espelhado no assalto ao Congresso Americano por Donald Trump. É por isso que procura-se um palavrão compatível com o vocabulário presidencial. Vá à M. não é tão sujo quanto as atitudes oficiais, mas, por enquanto, quebra o galho.
Selfie: o autor e Dona Maria, a sua panela. Pau nela!
Os panelaços nos pronunciamentos do ilustríssimo Sr. Jair M. Bolsonaro em rede nacional de TV anteciparam sua avaliação como “ruim ou péssimo” pela maioria dos brasileiros, e “horroroso” no conceitos dos panelistas militantes. Em poucas palavras e muitos palavrões, o presidente mais vaiado na História do Brasil culpa “a imprensa de merda que só atrapalha.”
É verdade. Atrapalha porque informação é poder e a divulgação dos seus atos amplifica os próprios desacatos. Atritos acumulados desde que o deputado Bolsonaro homenageava torturadores e defendia milicianos no plenário da Câmara frustraram suas tentativas de seduzir a imprensa, e o “gabinete do ódio” elimina as possibilidades de entendimento.
O barraco desabou definitivamente quando o presidente aproveitou a confraternização de capachos numa churrascaria em Brasília, DF, para contestar a denúncia de R$ 1,8 bilhão gastos pelo governo em 2020 só com alimentos, sendo R$ 15 milhões com leite condensado, R$ 2,2 milhões com chicletes, R$ 32,7 milhões com pizzas, refrigerantes e vinhos. Em poucas palavras e muitos palavrões…
“Quando a imprensa me ataca, dizendo que comprei dois milhões e meio de latas de leite condensado, vai para puta que o pariu. Imprensa de merda essa daí. As latas de leite são pra enfiar no rabo de vocês aí.”
Pai, afasta de mim esse cale-se, porque a imprensa também chafurda nos chiqueiros políticos, depósitos da matéria prima sensacionalista. Escândalos, quanto mais sujos “melhor”, atraem o público desde a disputa entre Joseph Pulitzer e Randolph Hearst pelo conquista dos leitores americanos. Suas cadeias de jornais precipitaram a Guerra Hispano-Americana em 1898, no apogeu da “imprensa amarela”. O fenômeno foi traduzido no Brasil como imprensa marrom, para não comparar a cor de M. com o “Auriverde pendão da minha terra, que a brisa beija e balança” (obrigado Castro Alves.) Patriotas de aluguel nos veículos de comunicação beijam a mão e balançam os bagos do capitão; mentem e omitem a sujeira que escoa dos palácios para os barracos, alheios ao “Estandarte que a luz do sol encerra, e as promessas divinas da esperança” …nessa terra onde plantando tudo dá, se aluga e vende. Inclusive reputações.
Ilustração pirateada de @pensarpiauí.com por causa justa e com a melhor das intensões
A relação ideal entre governo e imprensa funciona como peso e contrapeso numa democracia, o sistema que consagra as liberdades de credo e expressão da minha vizinha, Dona Decibel, e sua estridente caixa som evangélica. Idem, idem, o volume do bate-boca com repórteres é o nó mais complicado nas tripas políticas do Sr. M. Bolsonaro, a quem Dona Decibel deseja o restabelecimento da obstrução intestinal que o levou no nosso avião exclusivo dele para desatar outro nó nas tripas num hospital particular paulista. Foi ingrato com o SUS de Juiz de Fora. Quanto à verborragia crônica, essa é incurável. Apesar da obstrução intestinal, ele defecou verbalmente sobre a carta da Comissão Parlamentar de Inquérito do Congresso Nacional, pedindo seus esclarecimentos sobre corrupção na compra de vacinas:
“Você sabe qual é a minha resposta, pessoal, caguei. Caguei para a CPI. Não vou responder nada.”
O ministro Marcos Pontes, um cabeludo anônimo, o presidente com diarreia verbal e a intérprete de libras. Imagem @carta caoital.com.
A intérprete de libras, à esquerda do cagão, nos ensinou que a primeira pessoa no pretérito perfeito do verbo cagar na linguagem dos surdos mudos é um murro no peito, e tchau! O ministro da Ciência e Tecnologia, sentado à direita, fez cara de papel higiênico e deu um sorrisinho marrom. O mais constrangedor é que o arremate da carta cita o Santo Evangelho, João 8:32 – “E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará.” Bolsonaro não especificou se a cagada na autoridade abrangia o Novo Testamento.
“Cala a boca. Vocês são uns canalhas. Vocês fazem um jornalismo canalha, que não ajuda em nada. Vocês não ajudam em nada. Vocês destroem a família brasileira, destroem a religião brasileira. Vocês não prestam.”
Charge de @miguelpaiva, pirateada por uma boa causa – fair copyright
Os destruidores da família e da religião não respondem nos mesmos termos porque precisam sobreviver e bons advogados custam caro! Mas o cordão dos puxa-sacos sacos cada vez encolhe mais. Ninguém gosta do confronto com as próprias grossuras, mas o Sr. Jair M. Bolsonaro arrota ofensas ao repórter que diz ter “uma cara de homossexual terrível”, manda outro perguntar à mãe pelos os recibos que ela dá para o pai. A alternativa para o contato público necessário, os recados sem a interferência “da imprensa canalha” ou o constrangimento dos panelaços recicla da censura; é a máscara a máscara da mordaça. Habemus chiquerinho.
A coisa surgiu do assédio ao presidente por turistas e correligionários diante do Palácio do Planalto. Ele mandou o motorista parar, os repórteres barrados na sala de imprensa aproveitaram a oportunidade, um deles perguntou sobre aquela grana que o policial Fabrício Queiróz – operador da rachadinha do senador Flávio Bolsonaro – depositou na conta da primeira dama. A resposta está nos anais do chiqueirinho:
“Minha vontade é encher essa sua tua boca de porrada.”
A “imprensa de merda” repercutiu o desequilíbrio do chefe de estado, o ritual de sedução dos eleitores atraiu mais curiosos e a segurança a gradeou o local, encurralando as pessoas como animais domésticos. Apesar dos incidentes, a assessoria do excelentíssimo Sr. Jair M. Bolsonaro constatou o aumento na audiência e bonecos de ventríloquo foram enchiqueirados com perguntas prontas e o coro de louvação sob encomenda.
“Mito… mito… mito…”
Mito muito! Os pronunciamentos na confraternização do presidente com o povo funcionam sem panelaços e o descarte dos jornalistas na interlocução com o governo estabeleceu a síndrome de Bonner. Ele mesmo, a cara da TV Globo, alvo prioritário da nova censura caracterizada pelo silêncio do perguntado e a frustração do perguntador: “A presidência da República não respondeu ao nosso questionamento.”
Bolsonaristas cumprimentam o presidente no chiqueirinho com a saudação fascista – imagem @revista forum.com.br
Justiça lhe seja feita, o digníssimo Sr. senhor presidente da República Federativa do Brasil não manda nenhum coleguinha “para a puta que o pariu” desde aquele churrasco em 27 de janeiro/2021, e o esculacho dos jornalistas no chiqueirinho evita velhos questionamentos sobre mais armas e menos vacinas, os deboches da pandemia, o charlatanismo da cloroquina, o estímulo à contaminação que matou a té agora 540 039 “mariquinhas”, os ataques pessoais a Ministro do STF, as mentiras sobre mentiras, as obstruções à Justiça, a desestabilização institucional nos ataques à confiabilidade das urnas eletrônicas, as ameaças de golpe, o rabo preso na apologia à tortura, a manipulação política das Forças Armadas, a militarização dos cargos públicos civis, as negociatas com o legislativo, o escárnio ao Congresso Nacional e a variante do vírus da censura na aglomeração de correligionários nos chiqueirinhos, para catequiza-los e torcer o rabo da imprensa.
Só pra constar, o porco que tiranizou seus seguidores na sátira de George Orwell a Revolução dos Bichos (Animal Farm) não se chama Jair. O nome dele é Napoleão, mas a ambição é a mesma, e é aí que a porca torce o rabo.
Vinte e um vinte e dois, vinte e três, vinte e quatro, vinte e cinco, vinte e seis, vinte e sete, vinte e oito, vinte e nove brasileños, à mercê do crime e castigo. Crime de deboche da pandemia e o castigo da impunidade.
Trinta e um, trinta e dois, trinta e três, trinta e quatro, trinta e cinco, trinta e seis, trinta e sete, trinta e oito, trinta e nove brasilians sem oxigênio na casa dos mortos, nas UTIs
Quarenta, quarenta a um, quarenta e dois, quarenta e três, quarenta e quatro, quarenta e cinco, quarenta e seis, quarenta e sete, quarenta e oito, quarenta e nove brasilianos entre guerra e paz; a guerra do dia a dia e a ânsia por paz social.
Cinquenta e um, cinquenta e dois, cinquenta e três, cinquenta e quatro, cinquenta e cinco, cinquenta e seis, cinquenta e sete, cinquenta e oito, cinquenta e nove brésiliens acossados por demônios salvadores da pátria.
Sessenta, sessenta e um, sessenta e dois, sessenta e três, sessenta e quatro, sessenta e cinco, sessenta e seis, sessenta e sete, sessenta e oito, sessenta e nove brasil’sky à mercê de um idiota sem compaixão.
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Setenta e um, setenta e dois, setenta e três, setenta e quatro, setenta e cinco, setenta e seis, setenta e sete, setenta e oito, setenta e nove, oitenta brasilianers tutelados pelo crocodilo legislativo.
Oitenta e um, oitenta e dois, oitenta e três, oitenta e quatro, oitenta e cinco, oitenta e seis, oitenta e sete, oitenta e oito, oitenta a nove baxiren doentes de tristeza, no subsolo social.
Noventa, noventa e um, noventa e dois, noventa e três, noventa e quatro, noventa e cinco, noventa e seis, noventa e sete, noventa e oito, noventa e nove burajiru traídos como o eterno marido
Cem, cento e um, cento e dois, cento e três, cento e quatro, cento e cinco, cento e seis, cento e sete, cento e oito, cento e nove البرازيلي sujeitos às trapaças do jogador desonesto.
Cento e um, cento e dois, cento e três, cento e quatro, cento e cinco, cento seis, cento e sete, cento e oito, cento e nove brasiliaans iludidos pelos demagogos que elegeram.
Cento e dez, cento e onze, cento e doze, cento e treze, cento e quatorze, cento e quinze, cento e dezesseis, cento e dezessete, cento e dezoito, cento e dezenove البرازيلي, gente pobre, simples, injustiçada.
Cento e vinte, cento e vinte e um, cento e vinte e dois, cento e vinte e três, cento e vinte a quatro, cento e vinte e cinco requerimentos de impeachment ao mandato do maior responsável pelo genocídio brasileiro mofam na gaveta do presidente da Câmara dos Deputados. A pauta das votações em plenário depende da sua sua vontade exclusiva, o poder de controle e condução do legislativo conforme suas conveniências e interesses. O engavetamento do 125º pedido de impeachment do presidente acusado de prevaricação e negociatas imorais subordina todos brasileiros à vontade de um deputado medíocre cujo cargo foi negociado pelo seu messias, digo, mecenas, Jair M. Bolsonaro.
A monotonia desta contagem cai no vácuo espiritual dos 525 229 mortos no Brasil pela Sars-Covid-19, até as 12:35 hs. desta terça-feira 03.07.21. Imagine a angústia na contagem do tempo por cada brasileiro agonizante na ausência dos seu entes queridos, uma tortura acentuada pelo deboche do presidente da República: “Chi, tô com covid… tô com covid…ha,ha,ha.”
Cumplicidades, negociatas partidária e ambições políticas explicam o engavetamento dos 125 pedidos legítimos de impeachment protocolado na mesa da Câmara. Resta um consolo provisório pela decisão do deputado Athur Cesar Pereira de Lira (PP-Al), vulgo Crocodilo das Alagoas. A procrastinação da posse na Presidência da República de outro general omisso, subordinado a um capitão que desonrou o Exército brasileiro.
Quanto aos que nos chamam de brasilians, brasileños, brasilianos, brésiliens, brasils’ki, brasilianers, baxiren, burajiro, brasiliaans, البرازيلي e outros estrangeiros, eles já nos admiraram. O nosso país foi um dos mais queridos antes do atual presidente ofender e insultar meio mundo
P.S. Humilhados e Ofendidos, Crime e Castigo, A Casa dos Mortos, Guerra e Paz, Notas do Subsolo, O Eterno Marido, O Jogador, Gente Pobre, Os Demônios, O Idiota e O Crocodilo são, entre outras, obras de Fyodor Dostoyevsky, o russo do século 19 que, sem desconfiar, escrevia sobre o Brasil e os brasileiros de 2021. Vide O Crocodilo, sátira na qual o burocrata Ivan Matviéitch é engolido vivo por um réptil como o nosso da Câmara dos Deputados. Eu concordo com o autor (que também era jornalista) sobre não haver um assunto velho ao ponto de ser impossível dizer nada de novo sobre ele.